29 novembro 2006

Governo reabre plano de compra de novos caças

Projeto é mais abrangente que concorrência cancelada em 2005 e pode ter custo superior a US$ 1 bilhão

Roberto Godoy - O Estado de São Paulo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reabriu a temporada de caça ao contrato para fornecimento de um novo jato supersônico de combate para a Força Aérea Brasileira (FAB). O plano é mais abrangente que a concorrência FX, cancelada em fevereiro de 2005 depois de cinco anos de trabalho da comissão encarregada de selecionar um novo interceptador para a FAB. A dotação para essa licitação era de US$ 700 milhões, cobrindo 12 aeronaves. As primeiras decisões do novo processo serão tomadas no biênio 2007-2008, segundo revelou ao Estado um oficial da área de tecnologia do Comando da Aeronáutica.

O projeto preliminar em análise pelo governo considera a formação de dois novos grupos de defesa aérea - um na região Norte e outro no Nordeste.

Para essas unidades seriam enviados os 12 Mirage 2000C, usados, comprados na França em julho de 2005 por 80 milhões, eventualmente reforçados por mais aeronaves do mesmo tipo a serem adquiridas. O reforço pode vir também pela redistribuição dos F-5M revitalizados
pela Embraer e pela Elbit, de Israel.

Os dois primeiros Mirage 2000C foram entregues em setembro. Na festa de recebimento pelo 1º Grupo de Defesa Aérea, na base de Anápolis, Lula anunciou a retomada dos estudos para incorporação de um novo caça de alta tecnologia. A intenção é definir a escolha e ter as encomendas assinadas até 2009, com possibilidade de entrega a partir de 2011. Como na licitação FX, o objetivo será a aquisição de uma frota de 12 jatos. A novidade, porém, é o custo. As cifram cresceram muito.

Tomando como referência os dois primeiros candidatos em consideração, o valor básico da operação passará para US$ 1 bilhão, no caso do francês Rafale, e para US$ 1,6 bilhão, se o escolhido vier a ser o Typhoon - caça europeu construído por um consórcio de quatro países - Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e Espanha. Nas duas hipóteses o pacote contém as peças e componentes de reposição, mais o treinamento do pessoal técnico e os manuais. Não se fala em
transferência de tecnologia.

Os russos já anunciaram que estão novamente no páreo com o mesmo avião submetido a avaliação do ciclo FX, o Sukhoi-35, um novo arranjo do Sukhoi-30 comprado - 22 unidades - pela aviação de caça da Venezuela. "Esses são os primeiros movimentos. Haverá com certeza
outras ofertas ao longo do tempo", acredita um militar, organizador da concorrência cancelada sem que houvesse vencedor.

O Rafale custa cerca de US$ 70 milhões pronto para entrar em ação. Escolhido pela Marinha e Aeronáutica da França (203 jatos, entre pedidos firmes e opções futuras) voa a 2.125 km/hora e cobre 3.125 quilômetros. Leva 8 toneladas de cargas externas. O radar é holográfico multidimensional. O Typhoon (710 caças negociados, inclusive 42 exportados para a Arábia Saudita) pode sair por até US$ 160 milhões cada. Velocidade na faixa dos 2.300 km/hora. Carga de 8 toneladas, alcance de 1.390 quilômetros.

28 novembro 2006

O submarino verde-e-amarelo II

Por Marina Nery,
do Rio de Janeiro - IPEA

Tecnologia


Construir um submarino, mesmo que convencional, é privilégio de poucos. No mundo, apenas quinze países têm a capacitação tecnológica necessária. No hemisfério sul, atualmente, somente o Brasil mantém um programa de construção em andamento, o que qualifica o país para a execução de outros projetos navais. "O Brasil é candidato a ser plataforma de construção e reparo de submarinos de água rasa, podendo exportar para países da América do Sul, da África e mesmo para as nações desenvolvidas que se especializaram em submarinos de águas profundas", diz José Carlos Miranda, secretário de Assuntos Internacionais do Ministério do Planejamento.

Embora o Tikuna seja o maior submarino brasileiro, não se deixe enganar. Os 62 metros de comprimento desse charuto metálico até que parecem razoáveis, mas os 6,2 metros de diâmetro são preenchidos por tubulações, máquinas, sistemas, radares e um sem-número de aparatos. Por vezes, sobra apenas meio metro de largura para que os tripulantes caminhem nas instalações. Isso se ninguém quiser se aventurar pela sala de máquinas, onde para alcançar determinados cantos é preciso abaixar.

O lugar mais espaçoso da embarcação é a proa, onde estão abrigados os enormes torpedos. Por ironia, é justamente lá que todos costumam se reunir para o lazer - quando não estão em missão, é claro. O motivo é simples: o espaço permite relaxar um pouco, mesmo ao lado de torpedos, e é ali que fica a sala de televisão. Contudo, numa situação real de conflito ou treinamento, o local é bem perigoso. Basta lembrar que o submarino russo Kursk afundou em 2000, com 118 tripulantes a bordo, exatamente porque um torpedo defeituoso explodiu na proa após um treinamento.


O escritor Júlio Verne não estava brincando quando deu status de monstro ao submarino Nautilus comandado pelo Capitão Nemo, no longínquo ano de 1870, em seu livro Vinte Mil Léguas Submarinas. O capitão-tenente Aurélio Linhares descreve o submarino como um enorme cetáceo de aço que mergulha despercebido nas águas e delas emerge - ou nelas permanece obscuramente para sempre.A vida a bordo, para ele, é um rosário de pequenos e diários sacrifícios: "Cada um tranqüilo em seu posto.Mas a tensão nervosa está presente. Escutam-se todos os ruídos, checando se são normais.Acompanham- se todas as inclinações e os adernamentos, analisando-os para que não se agravem nem se prolonguem.Aspiram-se todos os odores: um curto-circuito na instalação, um derramamento de ácido. Há os que acompanham os manômetros, os grupos, a profundidade, as pressões...Na manobra e no cuidado de um pode estar a vida de todos".


Diferente do famoso yellow submarine ("submarino amarelo", em português) criado pelo grupo inglês The Beatles, no Tikuna não há escotilhas. A sensação de clausura submarina é real. "O ar é renovado por um sistema chamado esnorquel, tanto para carregar baterias como para a respiração dos tripulantes", esclarece o comandante Oliveira Júnior. A embarcação sobe a uma profundidade suficiente para que o periscópio alcance a superfície e iça um mastro que suga ar com diesel-geradores. Um submarino convencional faz isso sempre que a carga de sua bateria cai a determinado nível. Quando sobe à tona por completo, oferece uma oportunidade única para os fumantes. Sim, isso mesmo, por incrível que pareça, existem tripulantes que conseguem conciliar o vício com a profissão de submarinista.

Mercado

O próximo passo na indústria brasileira deve se dar ainda neste ano. Será um contrato de construção e modernização de submarinos firmado com a siderúrgica alemã Thyssen Krupp, por meio de sua subsidiária Thyssen Krupp Marine Systems.O projeto em discussão prevê a entrega do submarino num prazo de sete anos após a assinatura do contrato e envolve também a instalação de uma siderúrgica no Rio de Janeiro, sede do Arsenal da Marinha. O investimento total será de 1,08 bilhão de euros. Assinado o contrato, os trabalhos começarão no início de 2007. Além do novo submergível (classe 214), de 1,5 mil toneladas de deslocamento, haverá modernização nos outros cinco. O acordo pressupõe a transferência de tecnologia,o que capacitará definitivamente o Brasil a construir,modernizar e exportar submarinos para outros países.

O mercado esperava que a Marinha tivesse optado pela construção de um submarino com o sistema AIP (air independent propulsion, em inglês, ou "propulsão independente do ar", em português), que poderia navegar entre Porto Alegre e Recife, durante duas semanas, sem ligar os motores a diesel, permanecendo praticamente imperceptível a qualquer sonar. Mas o alto custo definiu a decisão a favor do modelo convencional sem AIP.

"Para 2007, o comando da Marinha já tem assegurados 301,7 milhões de reais para a construção de submarinos e outros 208,5 milhões de reais para sua modernização", informa o senador Siba Machado (PT-AC), que participou da aprovação dos recursos na revisão do Plano Plurianual 2004-2007, pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional.
Os equipamentos são tantos que sobra pouco espaço para movimentação dentro do submarino. Os profissionais devem ter boa capacidade de autocontrole

Espera-se que o projeto gere 4 mil novos empregos, além de incentivar a criação A tripulação do Tikuna consegue ouvir um golfinho se aproximando de um complexo industrial de fornecedores de componentes. A experiência do Tikuna mostra que isso é possível. A construção do submarino promoveu progressos, inclusive, em algumas atividades paralelas, como o Laboratório de Som do Centro de Instrução de Submarinos e Mergulho (Ciama),na Ilha de Mocanguê, em Niterói, no Rio de Janeiro. Ali está em elaboração um banco de dados de sons e ruídos do ambiente marinho, gravados e registrados para utilização no treinamento de submarinistas e no teste de peças e equipamentos.

O submarino nuclear tem muitas vantagens, entre elas a possibilidade de submersão por até três anos, o que é positivo do ponto de vista estratégico, embora resulte em enorme desgaste para os tripulantes. Seu combustível, no entanto, gera muita polêmica e oposição, principalmente por parte de organizações preocupadas com a preservação ambiental. Essas e outras razões explicam o porquê de o Brasil não dedicar maior esforço à construção de seu modelo nuclear. "Resta saber qual a tripulação que permanecerá três anos submersa e quantos submarinos podem ser fabricados com os recursos necessários para completar a construção do submarino atômico", pondera o coordenador da Campanha Antinuclear do Greenpeace, Guilherme Leonardi. Por outro lado, a máquina daria ao Brasil capacidade de atuação global e aumento do poder de dissuasão, um incentivo à solução pacífica de conflitos. Na ausência de necessidade, o Tikuna segue silenciosamente patrulhando a extensa costa do país.

O submarino verde-e-amarelo I

Por Marina Nery,
do Rio de Janeiro - IPEA

Rápido e silencioso, ele é o guarda-costas perfeito para os 8,4 mil quilômetros de costa marítima do Brasil. O Tikuna incorpora inovações tecnológicas que lhe garantem melhor desempenho, menor ruído e maior período de submersão. A etiqueta Made in Brazil confirma o país no seleto grupo de quinze nações com capacidade de fazer submarinos e permite que seja plataforma de construção e reparo para clientes da América do Sul e da África

Navegar em submarinos é antes de tudo um exercício de adaptação a pequenos espaços. Algo como viver feito sardinha em lata. Não é sem motivo que o cinema gosta de explorar as tensões que surgem entre pessoas confinadas num artefato de metal, sem poder ver a luz do sol e cercadas por muitos milhões de metros cúbicos de água.Todo cuidado é pouco quando se trata de passar dias submerso. O capitão-de-fragata Francisco Antonio de Oliveira Júnior, comandante do Tikuna, o mais novo submarino brasileiro, passa a vida em estado de alerta. Sua audição aguçada está sempre procurando qualquer leve barulhinho na mais ínfima parte do submarino. E são muitas, muitas partes. Só as válvulas são incontáveis, mas Oliveira Júnior é capaz de dizer como cada uma delas está operando.

O S34-Tikuna, quinto submarino a compor a frota brasileira, não é nuclear, como o Seaview, comandado pelo almirante Harrigan Nelson, do seriado de TV Viagem ao Fundo do Mar. Ele é do tipo convencional, movido a bateria. Contudo, obviamente, não se trata de bateria comum. Em cada uma há 480 elementos. E as baterias são um dos itens de tecnologia nacional embarcados no submergível.

Embora construído no Brasil, o Tikuna é um projeto adaptado do modelo alemão IKL-209. Por isso, seu nome oficial é IKL-209-1500. Sua história começou em 1982, quando a Marinha brasileira assinou um contrato com o consórcio alemão Ferrostaal/Howaldtswerke Deutsche Werft (HDW), responsável pela construção do primeiro submarino no mundo, em 1850.

Os engenheiros navais brasileiros projetaram diesel - geradores potentes e eficientes, que reduziram o tempo de recarga das baterias O submarino brasileiro é extremamente silencioso, resultado de tecnologia nacional. A tripulação do Tikuna consegue ouvir um golfinho se aproximando

O negócio previa a construção de dois navios. O primeiro feito na Alemanha, com acompanhamento de técnicos brasileiros, e o segundo fabricado no Brasil, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro. Foi assim que surgiram o submarino Tupi, de 1989, e o Tamoio, lançado seis anos depois. Posteriormente, foram fabricados mais dois, evoluções do modelo inicial, e por isso considerados da família Tupi (veja ao lado a tabela que mostra as características da frota brasileira de submarinos).

O Tikuna é o mais novo integrante da família. "É uma espécie de classe intermediária, com peculiaridades básicas do alemão IKL 209/ 1400, mas muito melhorado nos aspectos operacionais", informa o engenheiro naval Irineu Franco, que trabalhou na primeira fase do programa.

Indiscrição
As diferenças são grandes e foram concebidas por engenheiros brasileiros (veja detalhes na tabela ao lado). Das modificações introduzidas, a que mais se destaca diz respeito às baterias. Elas descarregam à medida que são usadas, e precisam ser recarregadas, como qualquer bateria. Mas a recarga é feita por dínamos movidos por motores a diesel, cuja combustão interna precisa de ar.

Então, para a recarga, é necessário que pelo menos o mastro do submarino esteja na superfície. Esse é um momento perigoso, pois a embarcação fica exposta à detecção visual e de radar - razão pela qual é tão importante a redução do tempo de carga. Os engenheiros navais brasileiros projetaram diesel-geradores mais potentes e mais eficientes, com o que chamam de "menor taxa de indiscrição", ou seja, menor tempo de exposição visual.

Mas não é apenas por meio da visão que se detecta a presença de um submarino. Muitas vezes a embarcação se revela pelo ruído que produz. A arte de construí-los tem muito a ver com a capacidade de manter silêncio no ambiente aquático, em que o som se propaga rapidamente.

Os brasileiros reduziram o nível global de barulho irradiado. Suavizaram as linhas do casco para que gerasse menos ruído hidrodinâmico, provocado pelo deslocamento de água. Dizem os tripulantes que, quando ficam quietos, podem ouvir até golfinhos se aproximando. O Tikuna é imperceptível, mais discreto por curtos períodos se comparado a um submarino nuclear. No conflito que envolveu Argentina e Inglaterra pelo controle das Ilhas Malvinas, em 1982, os submergíveis ingleses alijaram do cenário os navios argentinos. Se contasse com bons submarinos convencionais, a Marinha argentina poderia ter defendido melhor suas embarcações.

O Tikuna leva uma tripulação de sete oficiais e 29 praças. Possui oito tubos de torpedo e é movido por propulsão diesel-elétrica, com motor elétrico, baterias e conjuntos de motores diesel-gerador. Sua construção permitiu ao Brasil dominar o ciclo "projeto, construção e reparação", o que é positivo, já que o processo de fabricação de submarinos estimula o desenvolvimento de novas tecnologias para a indústria naval e beneficia outros setores, além de aumentar a geração de empregos.

O Tikuna proporcionou ao país o domínio do ciclo "projeto, construção e reparo" de submarinos, que, entre outros benefícios, estimula a indústria naval.

Tikuna é o nome de uma das tribos indígenas mais guerreiras e persistentes do Brasil, motivo pelo qual foi escolhido para identificar o submarino que levou dez longos anos para ficar pronto. Nesse período, foram gerados 402 empregos diretos e 2,1 mil indiretos, para militares e civis.

23 novembro 2006

Índia negocia compra de Sea King para LPD


A Marinha da índia, pela primeira vez em sua história, negocia com o governo dos EUA a aquisição de oito helicópteros SAR de longo alcance Sea King. Caso a negociação se concretize, os helicópteros serão utilizados a bordo do recém adquirido USS Trenton. Este último, um LPD da classe Austin, será entregue em fevereiro de 2007. A expectativa é de que os helicópteros sejão entregues na mesma data. (Poder Naval)

Índia negocia compra de Sea King para LPD


A Marinha da índia, pela primeira vez em sua história, negocia com o governo dos EUA a aquisição de oito helicópteros SAR de longo alcance Sea King. Caso a negociação se concretize, os helicópteros serão utilizados a bordo do recém adquirido USS Trenton. Este último, um LPD da classe Austin, será entregue em fevereiro de 2007. A expectativa é de que os helicópteros sejão entregues na mesma data.

Do Moskva ao Ulyanovsk - O programa soviético de navios-aeródromo

Guilherme Poggio - Poder Naval

Estratégias diferentes

O discurso soviético nos anos mais “quentes” da Guerra Fria era de que os NAes americanos não passavam de alvos de grandes dimensões e, por essa razão, fáceis de serem encontrados e afundados. Os NAes dos EUA são navios-capitais, núcleos de forças navais (Carrier Battle Groups - CBG). A esses estão subordinados os demais elementos (cruzadores, fragatas, submarinos, etc). Uma vez destruído o NAe, o CBG perde sua identidade.

O princípio da estratégia naval da URSS era inverso e baseava-se no emprego “furtivo” dos submarinos, sendo que os navios de superfície de sua marinha deveriam fornecer o apoio necessário para que aqueles pudessem executar sua tarefa. Uma estratégia bastante interessante, mas que não necessariamente excluía o emprego de NAes. Na verdade, a demora por um programa de desenvolvimento de NAes na antiga URSS possui bases políticas e históricas bastante complexas.

O começo - Projeto 1123 "Kondor"

A história da aviação embarcada moderna na marinha soviética começou com o emprego de helicópteros ASW, sendo que a ameaça dos submarinos nucleares norte-americanos armados com mísseis Polaris foi o grande pretexto. Após receber o sinal verde do governo de Moscou em 1958, a equipe de projetistas do Bureau de Nevskoye, na atual cidade de San Petersburgo, começou a trabalhar numa nova classe de cruzadores anti-submarinos dotados de aeronaves de asas rotativas denominada Projeto 1123 “Kondor”.

A marinha russa nunca havia produzido nada parecido e qualquer passo nesse campo era novidade. Não é por menos que mais de uma dúzia de versões foram elaboradas durante a fase de projeto. Como exemplo, os requisitos iniciais para um deslocamento de aproximadamente 4.500 t, aumentaram para 14.600 t no estágio de construção

O desenho final guardava certa semelhança com o francês Joanne D’arc, onde o convôo projetava-se desde a popa até a meia nau. Ali, existiam quatro marcações de convés para pouso e decolagem de helicópteros e a capacidade normal de operação era de 14 Kamov Ka-25. Através de dois elevadores, as aeronaves eram conduzidas ao convés inferior. Na proa estavam instalados os principais sistemas de armas que incluíam um lançador ASW Vikhr (SUWN-1), dois lançadores SAM Shtorm (AS-N-3), dois lançadores de foguetes anti-submarinos RBU-6000 e dois lançadores quíntuplos de torpedos. Nos bordos existiam ainda dois canhões duplos de 57 mm. Pecavam apenas no armamento ASuW, compensado pelos SSM existentes nas escoltas que compunham o grupo.

O primeiro navio da classe foi lançado ao mar em janeiro de 1964, e foi batizado com o nome da capital – Moskva (Moscou). O segundo e último exemplar da classe 1123, o Leningrad, foi completado em 1969. Ambos os navios foram classificados como PRK (Protivolodochnyy Kreyser – Cruzador Anti-submarino).

Introduzindo asas fixas

Os trabalhos para o desenvolvimento de uma novo navio-aeródromo muito mais capaz tiveram início em 1967. Denominado projeto 1143 “Krechet”, a nova classe de navios deveria ser um cruzador anti-submarino (Taktycheskoye Avionosnyy Kreyser-TAKR), com capacidade de transportar aeronaves VTOL e helicópteros.

O seu desenho final não se parecia com nada até então produzido pela indústria naval mundial. Com uma superestrutura voltada para boreste, houve a possibilidade de se construir um convés de vôo em ângulo (4,5º) no bordo oposto para operar o grupamento aéreo. Assim como o P1123, os principais sistemas de armas no navio concentravam-se na proa, e incluíam oito lançadores de SSM P-500 Bazalt (SS-N-12), dois sistemas de SAM Shtorm (AS-N-3) de médio alcance e dois Osa-M (AS-N-4) de defesa aproximada, além de canhões de 76 mm e 30 mm e foguetes anti-submarino.

Com deslocamento superior a 40.000 t, os navios dessa classe superavam o projeto 1123, e tornavam-se os maiores navios de guerra construídos na URSS. Pela sua grandeza e complexidade o projeto 1143 representou um desafio aos projetistas e aos estaleiros soviéticos.

Assim como os dois navios do projeto 1123, os estaleiros de Nikolayev (sul) ficaram responsáveis pela construção do classe 1143. O primeiro (batizado de Kiev) teve a quilha batida em julho de 1970 e lançado ao mar em dezembro de 1972. Em seguida veio o Minsk. Ambos foram comissionados em 1975 e 1978 respectivamente.

Os primeiros dois navios eram praticamente iguais. O terceiro, no entanto, apresentava algumas modificações em relação aos seus predecessores. Denominado Projeto 1143.3 ou 1143M, o novo navio tinha um estoque de mísseis P-500 reduzido para oito unidades, equipamento de sonar modificado e capacidade para transporte de combustível aeronáutico elevada, resultando num deslocamento ligeiramente superior. Mas a principal mudança não ocorreu na plataforma em si, mas sim no seu grupamento aéreo, que deveria ser composto por aeronaves VTOL supersônicas como o Yak 36P (Yak-141) e helicópteros Ka-27.

O quarto e último navio da série 1143, foi lançado ao mar em 1982 e recebeu o nome de Baku. Nessas época, o projeto Yak-141 estava mais adiantado. Além disso, o COC foi modificado para trabalhar com novo sistema de vigilância aérea e de superfície. Este operava totalmente integrado com um gerenciador de campo de batalha chamado “Sky Watch” composto por antenas planas semelhantes ao sistema norte-americano “Aegis”.

Na área de armamento foi instalado o novo sistema SAM VLS Klimok, o número de mísseis P-500 foi aumentado para 12 (observar que no navio anterior a este tinha sido reduzido), e o armamento de tubo de médio calibre foi alterado para duas torres simples de 100 mm. As novas mudanças elevaram o deslocamento para algo em torno de 45.000 t. O navio foi utilizado intensamente como banco de provas entre 1982 (ano em que foi lançado ao mar) e 1987, ano em que realmente foi comissionado. Por razões políticas, seu nome foi mudado para Admiral Gorshkov em outubro de 1990.

Completado em 1987, o Admiral Gorshkov sofreu um acidente em suas máquinas em 1992 e um grande incêndio no ano seguinte. Em fevereiro de 1994, uma de suas caldeiras explodiu, retirando-o de serviço. O navio foi reparado mas não voltou a navegar desde então, permanecendo no porto Severomorsk. Aliás, problemas na planta propulsora dessa classe foram herdados do projeto 1123, e todos os quatro navios da classe Kiev sofreram pelo menos um grande incêndio durante sua vida operacional.

Divergências políticas sobre o futuro da aviação embarcada

Em 1969 a URSS aprovou o plano de construção militar de navios para o período 1971-1980 que incluía o desenvolvimento de um projeto de navio-aeródromo operando aeronaves convencionais. Trabalhos nesse sentido tiveram início em 1970, antes mesmo do Kiev ter sua quilha batida. Em 1972, a equipe de projetistas do Bureau de Nevskoye saiu com um desenho conceitual do Projeto 1160 “Oryol”.

Tratava-se simplesmente de um NAe convencional (com catapultas a vapor), movido por reatores nucleares, deslocando algo em torno de 80.000 a 85.000 t e capaz de acomodar um grupamento aéreo de até 70 aeronaves. Um projeto que, nos seus traços básicos, assemelhava-se aos NAes norte-americanos da classe Forrestal, com exceção dos mísseis SSM, típico nos cruzadores soviéticos. No grupamento aéreo embarcado, previa-se versões navais do MiG-23 que seriam posteriormente substituídos por Su-27.

Do ponto de vista político, existiam grupos prós e contrários ao NAe dentro da Marinha e do Ministério de Defesa Soviético. Quando o Marechal Ustinov substituiu seu colega Grechko no Ministério da Defesa, o projeto 1160 foi cancelado em favor de mais unidades tipo Kiev, por acreditar que NAes com aeronaves VTOL, em termos de custo/eficiência, eram mais vantajosos.

A maré para o grupo a favor do NAe começou a mudar na metade da década de setenta quando o Projeto 1153 recebeu luz verde. Nesta época o terceiro navio da classe Kiev começava a ser construído. O Projeto 1153 era uma versão reduzida do Projeto 1160. Deslocando 70.000 t, seria capaz de acomodar 50 aeronaves, entre elas o MiG-23K e o Su-25K. Mas assim como o seu antecessor, o P1153 não saiu das pranchetas.

Somente em 1978/79 foi aprovado uma quinta unidade do projeto 1143 equipada com catapultas, mas

cancelada posteriormente. Em 1981, os integrantes do grupo pró-NAe conseguiram convencer o Ministro Ustinov a aprovar o desenvolvimento de um navio aeródromo que fosse uma versão intermediária entre o Kiev e o “Oriel”. Nasceu assim o projeto P1143.5, um NAe com tamanho intermediário e dotado de “ski-jump” ao invés de catapultas a vapor.

O Admiral Kuznetsov

Desconsiderando as divergências políticas, o desenvolvimento de NAes convencionais seria apenas uma questão de tempo, uma vez que os projetistas e os estaleiros soviéticos caminhavam nessa direção. Mas havia um impedimento legal, de caráter extra-nacional. O principal centro de construção e reparos de NAes havia sido estabelecido no Mar Negro. Ali, os estaleiros Nikolayev Sul produziram desde o primeiro PKR Moskva até o último dos TAKR (o Admiral Gorshkov). Para que os navios pudessem chegar ao Mediterrâneo, e posteriormente ao Atlântico, era necessário que estes passassem pelo Estreito de Dardanelos, que pela Convenção de Montreaux (1936), proibia a passagem de qualquer “porta-aviões” pelo estreito. Uma das tarefas dos homens de Moscou era convencer as autoridades políticas de outras nacionalidades de que o futuro NAe soviético não era um NAe real, mas sim um “Cruzador porta-aeronaves”. E, por essa razão, o P1143.5 recebeu a designação Taktycheskiy Avionosnyy Kreyser (TAKR).

O novo NAe soviético foi batizado inicialmente de Varyag em 1982, sendo renomeado em 1984 para Leonid Brezhnev e lançado ao mar no ano seguinte. Trocou de nome novamente em 1988, passando a se chamar Tbilisi. Em 1991 adquiriu seu nome definitivo, “Admiral Flota Sovetskogo Soyuza Kuznetsov” (Almirante da Frota da União Soviética Kuznetsov), ano em que foi formalmente comissionado. Nomes como Kremlin e União Soviética também foram utilizados no ocidente como referência ao navio.

Suas características colocava-o próximo do projeto 1153, com deslocamento máximo de 65.000 t e capacidade para operar até 52 aeronaves. No entanto, algumas fontes sugerem que a opção por uma rampa tipo “ski-jump” tenha ocorrido em função dos insucessos obtidos no programa de desenvolvimento de catapultas a vapor.

Uma segunda unidade, inicialmente denominada Riga e posteriormente batizada como Varyag, foi lançada ao mar em 1988, mas nunca completada. Quando a URSS se dividiu em várias repúblicas em 1991 o navio passou a pertencer à Ucrânia, que ficou incapaz de terminá-lo.

Tempos depois, a imprensa norte-americana publicou uma reportagem sobre a possível venda do Varyag para um consórcio de empresas de turismo sediadas em Macau, cujo objetivo era transformar o inacabado NAe em um hotel/cassino. Investigações realizadas pela mídia mundial revelaram que a empresa de turismo interessada na compra do navio não possuía agência em Macau. Essa firma que executava a transação era controlada por um grupo empresarial com sede em Hong Kong, cujos donos eram oriundos da região de Shandog, local onde a marinha chinesa constrói seus navios. Além disso um dos donos era oficial de carreira do Exército de Libertação Popular Chinês.

Ulyanovsk, o verdadeiro CVN

Em 1984, antes mesmo do lançamento do Kuznetsov ao mar, a equipe de projetistas do Bureau de Nevskoye já trabalhava numa versão ampliada do projeto 1143.6 denominada 1143.7.

Maior e mais poderoso, o projeto 1143.7 seria o primeiro NAe soviético com propulsão nuclear e, em função disso, capaz de desenvolver velocidades em torno de 30 nós. O navio deveria deslocar 75.000 t e transportar 70 aeronaves convencionais. Foi projetado como um híbrido e possuiria tanto uma rampa tipo "ski jump" como catapultas. Dentre as aeronaves, seriam embarcadas versões navalizadas do MiG-29, Su-27, Su-25 além de um novo projeto de aeronave AEW a ser desenvolvido pela Yakolev (Yak-44).

A primeira unidade P1143.7, denominada Ulyanovsk, teve sua construção iniciada em 1988, e paralisada em 1991 após 40% da superestrutura estar concluída. No ano seguinte foi desmontado. Uma Segunda unidade, que não chegou ao estágio inicial de montagem, teve as suas partes de metal fundidas novamente.

O desmonte da aviação naval soviética

Tanto o Moskva como o Leningrad, os primeiros passos no campo da aviação embarcada russa, foram também os primeiros a deixarem o serviço ativo. Sofriam de problemas originados ainda na fase de projeto. Eram embarcações com problemas de caturro (a proa tendia para “dentro” das ondas em situações de mar agitado) resultando em condições de navegabilidade ruins. O projeto P 1123 como um todo possuía muitos problemas mecânicos e por duas vezes o Moskva teve a sua planta propulsora reconstruída, sem falar de um grave incêndio ocorrido em 1975 na praça de máquinas.

Embora estivessem oficialmente na ativa no começo dos anos noventa, já não eram navios ativos. Salvo um pequeno cruzeiro no final de 1991, operacionalmente, o Moskva encerrou suas atividades ainda em 1983, depois de apenas 14 anos de serviço. Seu casco ficou então exposto no porto de Sebastopol (Criméia) até 1996. Destino semelhante teve seu irmão, o Leningrad.

Dos quatro navios da classe Kiev, o Minsk e o Novorossiysk deram baixa em julho de 1993 e foram vendidos como sucata para uma empresa da Coréia do Sul no ano seguinte. O reboque dos cascos ocorreu em novembro de dezembro de 1995 respectivamente. Mas após permanecer alguns anos perto de cidade coreana de Pulsan, o casco do Novorossiysk foi vendido para um estaleiro indiano e o do Minsk para uma firma chinesa. Mesmo destino teve o casco do Kiev, retirado oficialmente de serviço em 1994 e rebocado para desmonte em maio de 2000.

O Gorshkov, o mais novo deles, foi vendido para a Marinha da Índia depois de uma longa novela. Após uma década de negociação, o governo da Índia finalmente formalizou um acordo inicial com os russos em janeiro de 2004. O acordo incluiu também a aquisição de 28 aeronaves MIG-29K e seis Kamov K-31 ASW. Atualmente o navio está passando por um longo processo de modernização (realizado pelos russos), incluindo a parte de sensores e armamentos. Além disso, será adaptado para o emprego de aeronaves STOBAR em conjunto com helicópteros. Os trabalhos estão programados para terminarem em 2008, mesmo ano que o atual NAe indiano, INS Virat, dará baixa do serviço ativo.

O futuro

A situação da marinha russa é bastante deplorável nos atuais dias. A começar pelo material humano. Os soldos são baixos e, muitas vezes pagos com atraso. Grande parte dos militares mais experientes foram em busca de melhores oportunidades em outros setores econômicos. Até mesmo na marinha mercante russa e de outros países. Além da falta de mão-de-obra especializada, não há fundos para manutenção regular da frota. Um bom número de navios que entrou no estaleiros, de lá não saiu mais. Boa parte das embarcações estão formalmente na ativa, mas na prática estão muito distantes do mínimo aceitável. Como se não bastasse tudo isso, as perspectivas para da força aeronaval embarcada são muito mais sombrias.

O verdadeiro e único NAe russo foi e ainda é o Kuznetsov. Ainda incompleto, ele foi ao mar pela primeira vez em 1991, partiu de Nikolayev e nunca mais voltou para a União Soviética. Neste curto período de trânsito, o URSS oficialmente deixou de existir. Algum tempo depois chegaria a Murmansk, na então recém nascida Rússia. Somente em 1995 ele seria completado. Entre dezembro de 1995 e março do ano seguinte, o Kuznetsov retornaria ao Mediterrâneo.

Atualmente o Kuznetsov encontra-se em Murmansk, esperando por reparos. Os portos do Mar do Norte não apresentam instalações adequadas à manutenção correta de NAes. Todo o parque industrial, voltado para a fabricação da NAes na antiga URSS, estava localizado em Nikolayev, atual Ucrânia. É por essa razão que, após o desmanche da URSS, o incompleto Varyag tornou-se propriedade da Ucrânia e esta, encantada com a possibilidade de se tornar um membro do "clube do porta-aviões", acabou sendo incapaz de terminá-lo.

Pode-se dizer que o programa aeronaval russo encontra-se próximo do fim. O único NAe sobrevivente está necessitando de manutenção, incapaz de ser feita nos estaleiros russos. Os programas então em andamento (o Varyag e o projeto 1143.7) foram, há muito, paralisados. O Kuznetsov está perto de se tornar um “elefante branco” na decadente marinha russa. Talvez ainda volte a navegar, mas sua carreira operacional está terminada. Assim que for oficialmente retirado de serviço, encerrará um ciclo na história aeronaval russa do pós-guerra.

Alemanha e Japão querem recuperar poderio militar após 60 anos

Agressores da Segunda Guerra se rearmaram e líderes querem maior papel para tropas; terrorismo e ameaça nuclear de Coréia do Norte são principais razões

STEPHEN FIDLER
DO "FINANCIAL TIMES"

Mais de 60 anos após sua derrota na Segunda Guerra Mundial, Japão e Alemanha parecem estar finalmente deixando para trás um dos legados duradouros do conflito. Sinais públicos enviados nas últimas semanas pelos líderes de Tóquio e de Berlim sugerem que os dois países estão chegando mais perto de desenvolver forças militares capazes de refletir sua influência econômica.

No Japão, o novo primeiro-ministro se viu confrontado com um novo desafio de segurança, e praticamente à porta de seu país: a Coréia do Norte já demonstrou formalmente que tem condições de detonar uma arma nuclear.

O teste nuclear do mês passado intensificou a discussão sobre se o Japão deveria desenvolver sua bomba nuclear própria. Em entrevista ao "Financial Times", Shinzo Abe disse que vai lutar por uma emenda no artigo da Constituição que impede o Japão de desenvolver suas Forças Armadas.

Enquanto isso, na Alemanha, o gabinete da chanceler Angela Merkel ratificou um documento governamental aprovando a ampliação do papel internacional das Forças Armadas nacionais. O documento apontou para as mudanças radicais advindas no ambiente de segurança do país, tais como o crescimento do terrorismo e a difusão de armas de destruição em massa. Ela disse que uma força militar eficaz "é vital para a segurança da Alemanha e para uma política de defesa que procura moldar seu ambiente ativamente".

Os fatos podem causar inquietação, em vista da destruição provocada no século 20 pelas agressivas tradições militares dos dois países. Mas, enquanto a China e outros países da região irão observar o Japão de perto, os vizinhos da Alemanha provavelmente verão a novidade com bons olhos. E o mesmo se aplica aos EUA, que quer que os dois países assumam uma parte maior do ônus da segurança global, da qual os americanos consideram que carregam uma parcela desproporcional.

Os paralelos históricos são inconfundíveis. Tanto o Japão quanto a Alemanha têm Constituições redigidas pelos EUA ou sob forte influência dos EUA -que impuseram leis básicas que procuraram jogar por terra para sempre as tradições militaristas dos dois países.

Nos dois países, a tradição antimilitarista é mais do que uma questão de leis: as lições da Segunda Guerra foram absorvidas por boa parte da população. Em contraste com os americanos, japoneses e alemães compartilham um ceticismo profundo quanto à eficácia do poderio militar para resolver disputas internacionais. Nos dois países, a mudança estratégica inaugurada pelo final da Guerra Fria foi acompanhada por uma mudança de geração. Shinzo Abe, que assumiu o poder no Japão em setembro, e Angela Merkel, que este mês completa um ano no poder, são os primeiros líderes de seus países a terem nascido após o final da Segunda Guerra.

Vizinhanças diferentes

Mas as diferenças entre eles são maiores que as semelhanças. A Alemanha integra alianças multinacionais: a União Européia e a Otan. Ela está cercada por países amigáveis e não tem nenhum adversário evidente. Já o Japão tem como único baluarte contra vizinhos hostis ou desconfiados a aliança que mantém com os EUA.

"São casos totalmente diferentes", diz Volker Ruehe, ministro da Defesa alemão entre 1992 e 1998. Durante a Guerra Fria, em contraste com o Japão, a Alemanha pôde mobilizar grande número de tropas em pouco tempo: uma força de 13 milhões de homens podia ser mobilizada em sete dias.

Países vizinhos como Dinamarca e Holanda vêm exortando a Alemanha a aumentar seu orçamento militar, coisa que os vizinhos do Japão dificilmente fariam. Ademais, depois de ter enviado suas primeiras tropas ao exterior para missão da ONU no Camboja, desde então ela já as enviou para muitas outras operações do tipo.

Mas o teste nuclear norte-coreano acrescentou urgência à discussão no Japão. O maior obstáculo ostensivo a uma posição militar mais assertiva tem sido o artigo 9 de sua "Constituição de paz" de 1947. O artigo reza que "o povo japonês renuncia para sempre à guerra como direito soberano da nação e à ameaça ou uso da guerra como maneira de resolver disputas internacionais".

Comenta-se que a dissolução das inibições decorrentes da Segunda Guerra seria sinal de que Japão e Alemanha estariam se tornando países mais normais. Mas tudo indica que o caminho à "normalidade" plena terá muitos obstáculos.

Tradução de CLARA ALLAIN

22 novembro 2006

USAF libera informações sobre o programa "aggressor"

Após décadas de segredos, oficiais da Força Aérea confirmaram, em 13 de Novembro, que caças de construção comunista foram voados no Estande de testes de Tonopah, ao noroeste de Las Vegas, Nevada.

De 1977 até 1988, o programa, conhecido como Constant Peg , viu tripulações aéreas da Força Aérea, Marinha e Fuzileiros Navais voando contra caças MiGs, desenvolvidos pelos soviéticos, como parte de um programa de treinamento onde pilotos americanos poderiam aprender melhor como derrotar ou evadir-se de caças do bloco comunista à época.

O Brigadeiro-General Hawk Carlisle, comandante da 3a Ala na Base da Força Aérea de Elmendorf, no Alasca, é um membro sênior do 4477o Esquadrão de Treinamento e Avaliação, e se lembra do treinamento que a unidade fornecia.

“O CONSTANT PEG deu aos pilotos uma oportunidade de aprender como combater aeronaves inimigas em um ambiente controlado e seguro, sem ter que suportar os riscos de um combate aéreo real”. Tipicamente, um piloto começaria com um vôo de familiarização básica para observar a aeronave inimiga e estudar as suas características, praticando manobras ofensivas e defensivas 1 x 1 contra elas, e finalmente, experimentar engajamentos contra inimigos múltiplos, sobre o deserto dos estandes da Base aérea de Nellis”.

Como um resultado da performance marginal das forças de caça americanas sobre os céus do Vietnã do Norte, Constant peg complementou outros treinamentos revolucionários, como a Red Flag ou Top Gun, e os esquadrões agressors da Força Aérea e Marinha. O programa também tinha o objetivo de eliminar o nervosismo que muitos pilotos sofrem nas suas primeiras missões de combate. Experiência histórica indicou que os pilotos que sobreviviam as suas primeiras dez missões eram muito mais prováveis de sobreviverem a um tour completo de missões de combate, e o Constant Peg tinha a intenção de ensinar a eles as decisões certas a serem tomadas em combate.

O fim do Constant Peg quase coincidiu com o fim da guerra fria, e naqueles tempo alguns de seus graduandos(da Constat Peg) já haviam passado por combates aéreos.

As aeronaves de ameaça voadas pelos Red Eagles divergiam em várias décadas e em capacidades. Havia o MiG-17 “Fresco”, um pequeno e ágil caça transônico colocado em serviço após a guerra da Coréia e usado extensivamente sobre o Vietnã e o Oriente Médio; o MiG-21 “Fishbed”, um caça supersônico usado ao redor do globo em grandes números, e os MiG-23 “Flogger”, com asas de geometria variável, também em serviço ao redor do mundo, que era uma tentativa soviética de igualar as sofisticadas capacidades do F-4 “Phantom” americano.

Embora tenha vindo tarde demais para influenciar o Vietnã, o Constant Peg influenciou grandemente o sucesso dos pilotos americanos na operação Desert Storm(tempestade no deserto), onde derrubaram 40 caças iraquianos, muitos dos quais eram Fishbeds e Floggers”, disse o General Carlisle.

Fonte: Força Aérea Americana

Traduzido por: César Ferreira

FAB recebe primeiro Super Puma Blindado

Foi entregue na terça-feira, 14 de novembro, à Força Aérea brasileira o primeiro H-34 Super Puma dotado de blindagem para a tripulação. O equipamento, polietileno de ultra-alta densidade molecular, envolto por uma camada de alumínio para proteção contra a ação do tempo, foi doado pela Helipark, um centro de manutenção e operação de helicópteros localizado no Município de Carapicuíba, na região da Grande São Paulo.

O Helipark ganhara notoriedade especial a partir do projeto de restauração da aeronave histórica Jahú, utilizada por João de Barros para a primeira travessia do Atlântico, em abril de 1927, meses antes do norte-americano Charles Lindbergh. Aliás, a técnica de trabalho artesanal desenvolvida e absorvida com esse programa foi fundamental para criação de moldes que seguem a curvatura da fuselagem para montagem das placas de blindagem.

O projeto, desenvolvido em parceria pela Helipark e pelo Centro Técnico Aerospacial tem por objetivo garantir uma maior operacionalidade do esquadrão 3º/8º, o único a utilizar o H-34 para missões de Busca e Salvamento de Combate - C-SAR (o GTE tem uma dotação de 2 H-34 para a função de transporte de autoridades).

Com tecnologia e matéria-prima nacionais, as mais de 15 placas que compõem o conjunto de blindagem, oferecem uma resistência balística a impactos de projéteis de 7,62mm x 51mm do padrão OTAN a partir de uma distância de 15 metros em uma incidência de até zero grau.

Para o desenvolvimento do programa foi realizada uma análise de vulnerabilidade que levou em consideração os tipos de ameaças, o perfil de navegação, ângulos de impacto e a velocidade dos projéteis. A partir destes dados foi estabelecida a meta para a resistência balística e os limites de peso para o conjunto, além da área a receber a proteção.

Com uma espessura de 20mm e uma massa de 22kg por metro quadrado, os painéis foram desenvolvidos artesanalmente e protegem os assentos e portas da aeronave, garantindo a integridade da tripulação de vôo, e as paredes e o piso da seção dianteira da fuselagem, onde ficam os artilheiros e as vítimas resgatadas nas missões C-SAR. Por questões de custo e limitações na carga paga da aeronave, a blindagem não cobre todo o piso da fuselagem, não se destinando, portanto, ao transporte de assalto, por exemplo.

Uma grande vantagem do projeto, além do fato de ser inteiramente nacional, o que atende à Política de Defesa Nacional, diminuindo a dependência de fornecedores estrangeiros e aumentando a operacionalidade dos meios, é a facilidade com que pode ser instalado e retirado das aeronaves, possibilitando que o esquadrão possa sempre ter aeronaves voando com o equipamento, ainda que a quantidade dos conjuntos seja inferior à quantidade de helicópteros na unidade.

De acordo com o Ten. Cel. Diniz, responsável pelo projeto no CTA, o acréscimo de peso, da ordem de 138kg, é irrisório se comparado às cifras do H-34, com peso máximo de decolagem, por exemplo, na faixa das 8,7 toneladas. Também não houve prejuízo para as características de vôo da aeronave, uma vez que o deslocamento do CG, além de pequeno, deu-se para a parte dianteira do helicóptero, compensando uma característica de CG recuado dos Super Pumas.

Presentes ao evento de entrega do H-34 8731 estavam oficiais de unidades do Exército brasileiro e da Marinha do Brasil que também operam versões do Super Puma. Os helicópteros Cougar do Exército, apesar de possuírem blindagem nos assentos, não oferecem proteção tão extensiva como a deste projeto, ao passo que os Super Pumas da Marinha não são dotados de blindagem, o que explica o interesse de ambas unidades em acompanhar a implementação do equipamento na FAB.

Fonte: ALIDE

Marinha e Aeronáutica realizam primeira avaliação operacional

No final de outubro, ocorreu a primeira avaliação operacional conjunta entre os Comandos da Aeronáutica e Marinha. O exercício atende ao estabelecido em diretriz da Política de Guerra Eletrônica do Ministério da Defesa, conforme Portaria Normativa nº 333, de 24 de março de 2004. “Integrar sempre que adequado, as atividades de avaliação operacional de sistemas, equipamentos e dispositivos de Guerra Eletrônica, no âmbito das Forças Armadas”.

Os meios da Força Aérea Brasileira e da Marinha do Brasil reuniram-se para realizar, no Rio de Janeiro, avaliações operacionais conjuntas de sistemas de defesa da aeronave A-1 e da Fragata Classe Niterói.

O exercício contou com a participação de representantes do COMGAR, do 1º/16º GAV, do 3º/10º GAV e do CINDACTA I pela Força Aérea e do COMEMCH (Comando-em-Chefe da Esquadra), do CASOP (Centro de Análise de Sistemas Operativos), do CASNAV (Centro de Análise de Sistemas Navais) e da Fragata Defensora da Marinha do Brasil.

Os objetivos de se avaliar o emprego de “chaff“ pela aeronave A-1 contra radares diretores de tiro e de se avaliar a modernização das fragatas classe Niterói foram plenamente alcançados, com singular aproveitamento dos meios, interação doutrinária e sinergia das equipes, desenvolvimento de táticas e procedimentos, sendo as lições aprendidas nas avaliações de extrema importância para ambas as Forças.

Fonte: FAB

Submarino chinês perseguiu frota norte-americana

Um submarino chinês perseguiu um grupo batalha de porta-aviões dos Estados Unidos no Pacífico no mês passado e emergiu dentro do alcance de tiro de seus torpedos e mísseis antes de ser detectado.

O encontro surpresa destaca o contínuo esforço da China em se preparar para um futuro conflito com os Estados Unidos apesar dos esforços do Pentágono para tentar melhorar as relações com os militares do governo comunista de Pequim.

O encontro do submarino com o USS Kitty Hawk e suas escoltas também é desconcertante para o comandante das forças norte-americanas no Pacífico, Almirante William J. Fallon, que está engajado em um ambicioso programa de intercâmbio militar com a China que tem como objetivo melhorar as relações entre as forças militares dos dois países.

A revelação do incidente ocorre em um momento em que o Almirante Gary Roughead, comando da Frota do Pacífico da U.S. Navy, está realizando sua primeira visita oficial para a China. O almirante de quatro estrelas deveria se encontrar com líderes militares chineses durante a visita de uma semana, que começou no final de semana passado.

De acordo com autoridades militares, o submarino de ataque diesel-elétrico chinês da classe Song acompanhou o Kitty Hawk sem ser detectado e emergiu a cinco milhas do porta-aviões no dia 26 de outubro.

Já na superfície, o submarino foi observado por um vôo rotineiro de vigilância realizado por um dos grupos embarcados do navio.

O grupo de batalha do Kitty Hawk inclui um submarino de ataque e helicópteros anti-submarino que são responsáveis por proteger os navios de combate de um ataque de submarinos.

De acordo com autoridades, o submarino é equipado com torpedos e mísseis anti-navio de cruzeiro de fabricação russa.

O Kitty Hawk e vários outros navios de guerra foram enviados para as águas oceânicas próximas a Okinawa naquela época como parte de um programa de deslocamento rotineiro de outono. As autoridades afirmaram que os submarinos chineses raramente tem operado em águas profundas longe da costa chinesa ou perseguido navios norte-americanos.

Um porta-voz do Comando do Pacífico se negou a comentar o incidente, dizendo que os detalhes são classificados. Porta-vozes do Pentágono também não quiseram comentar.

O incidente é uma reviravolta para o agressivo programa de intercâmbio militar entre EUA e China que está sendo promovido pelo Almirante Fallon que realizou diversas visitas para a China em meses recentes para tentar desenvolver laços mais estreitos entre os dois países.

No entanto, críticos do programa no Pentágono dizem que a China não tem sido recíproca e continua a negar acesso a instalações importantes, incluindo um centro de comando em Pequim, aos visitantes militares norte-americanos.

Fonte: The Washington Times

Submarino que a Marinha quer comprar teve sérios problemas na Grécia

Por Cláudio Camargo

Grandes guerreiros do mar na Antigüidade, os gregos estão vivendo uma situação de virtual guerra em águas profundas com a Alemanha por causa dos problemas apresentados pelo submarino convencional U-214 - o mesmo tipo que a Marinha do Brasil pretende adquirir. O novo modelo de submarino alemão está, literalmente, fazendo água. O desempenho do primeiro dos quatro submarinos de propulsão a diesel encomendados pela Grécia em 2000, fabricado pelo estaleiro alemão HDW, está seriamente comprometido por diversos problemas técnicos, cuja origem - projeto ou construção - ainda não está determinada. São problemas graves, como alta instabilidade em superfície (inclinação de 50 graus em situações de mar revolto), infiltração de água no sistema hidráulico durante a imersão, alto nível de ruído - o que tornaria sua detecção pelo inimigo mais fácil -, vibração no periscópio em velocidades acima de três nós - o que provoca imprecisão fatal para a mira nos alvos - e sistema de armas fora das especificações.

Desde a assinatura do contrato, o governo grego já desembolsou 1,3 bilhão de euros de um total de 1,8 bilhão. O problema foi identificado há mais de um ano, em setembro de 2005, quando estava prevista a entrega da primeira unidade, fabricada em Kiel, na Alemanha (as outras três seriam fabricadas no estaleiro grego de Skaramonga, adquirido pela HDW). A imprensa grega tem reportado que Berlim pressionou fortemente o governo de Atenas para que aceitasse a encomenda, sem que o fabricante se comprometesse formalmente a resolver as falhas. Em face da recusa do Ministério da Defesa grego em receber os submarinos com os defeitos apresentados, a ThyssenKrupp, que controla a HDW, ameaçou retirar-se do estaleiro Skaramonga. O governo grego manteve-se firme na sua decisão, lembrando que a sobrevivência do estaleiro não dependia da fabricação dos U-214, porque o Ministério da Defesa grego já havia feito grandes encomendas a ele. No último dia 30 de outubro, os alemães finalmente reconheceram a existência de problemas técnicos e se comprometeram a resolvê- los num prazo de seis meses. O governo grego não exigirá pagamento de multa por não cumprimento de contrato, mas a HDW não recorrerá caso não apresente solução.

O problema com os U-214 vendidos à Grécia tem implicações diretas para o Brasil. O comando da Marinha pretende adquirir uma unidade do mesmo modelo e reformar os cinco existentes (classe Tupi, modelo U-209, também fabricados pela HDW). A Comissão de Financiamentos Externos (Cofiex) do Ministério do Planejamento aprovou, nesta semana, o contrato para que um consórcio de bancos europeus financie parte de 1,08 bilhão de euros (R$ 2,9 bilhões) para a compra (do total, 136 milhões de euros deverão ser desembolsados pelo governo brasileiro). O curioso é que a essa aquisição - justificada como necessária pela Marinha para evitar duplicidade de custos logísticos – esteja sendo divulgada sem que se faça menção aos graves problemas ocorridos com o mesmo modelo na Grécia, detectados há mais de um ano. Sabe-se que técnicos alemães virão ao Brasil para explicar como pretendem corrigir as falhas. Então, por que a pressa? Por que descartar a construção do submarino nuclear - como sugeriu o chefe do Estado-Maior da Armada, almirante Jannot de Mattos -, se ainda não há no mundo um único submarino do tipo que a Marinha encomendou à HDW?

Fonte: Revista Brasil

21 novembro 2006

Submarino nuclear tem construção adiada

Para compensar, Marinha reforçará frota de embarcações convencionais

Roberto Godoy - O Estado de São Paulo

A Marinha do Brasil adiou por prazo indeterminado a construção de um submarino movido a energia nuclear, o SNA. O navio estava sendo considerado para entrar em operação até 2020 e custaria US$ 1,2 bilhão.

O gigante de 9.200 toneladas e 110 metros de comprimento, grande como um campo de futebol, passou a ser uma decorrência da pesquisa que a Marinha mantém no setor atômico. Assim, no futuro, depois de dominar todas as tecnologias envolvidas, é que o País decidirá pela construção de uma embarcação desse tipo.

O último investimento direto nos estudos em torno do SNA foi em 1994. 'Como nada é definitivo quando se trata de defesa, o processo pode ser considerado apenas como adiado, embora um adiamento de longo prazo', disse ontem ao Estado um integrante do Comando de Operações Navais.

Para manter o programa nuclear - que resultou no domínio do ciclo do combustível atômico e na criação de ultracentrífugas para enriquecimento de urânio -, o Comando da Marinha precisa receber R$ 130 milhões por ano até 2013. Os atuais R$ 40 milhões cobrem gastos com manutenção e pessoal. E só.

O foco da proteção estratégica da plataforma territorial passou a ser uma reforçada frota de submarinos convencionais, movidos por motores diesel-elétricos.

ACORDO

O Comando da Marinha escolheu o alemão IKL-214 para a missão. É uma evolução das quatro unidades da classe Tupi e do único da linha Tikuna - todos baseados na série 209 do estaleiro alemão ThyssenKrupp Marine Systems-HDW. O primeiro foi feito em Kiel, no Mar do Norte. Os três seguintes saíram do estaleiro no Rio. O Tikuna recebeu alterações feitas pelos técnicos do Arsenal da Marinha.

O acordo de cooperação bilateral foi assinado em 1982. O novo contrato é de 1 bilhão, cobrindo a fabricação de um submarino e a modernização dos outros cinco. A contrapartida da Thyssen é a construção de uma siderúrgica no Rio. O Comando da Marinha justifica a escolha do navio alemão pela qualidade e 'para evitar a duplicidade de custos logísticos'.

Há alguma dificuldade no programa. O IKL-214 foi selecionado pela Grécia, onde está sofrendo críticas pesadas. Uma comissão chefiada pelo capitão J. Lignos está encarregada de apurar as razões pelas quais em águas revoltas o Papanikolis, primeiro de um grupo de três embarcações, apresenta oscilação de 50 graus em relação ao eixo. Mais: o ruído das máquinas, a assinatura eletrônica de sistemas, a perda de potência em determinadas condições e a baixa precisão do periscópio de ataque estariam comprometendo o desempenho do navio. Uma equipe de especialistas da Alemanha virá ao Brasil para explicar como as falhas serão corrigidas.

19 novembro 2006

O Brasil e a Defesa Nacional

Waldir Pires

Introdução

Inicialmente, quero agradecer ao eminente Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Roberto de Guimarães Carvalho, a honra que me conferiu, convidando-me para vir aqui, hoje, proferir a Conferência de Abertura do VI Encontro Nacional de Estudos Estratégicos, com o importante, tema que me foi sinalizado: “O Brasil e a Defesa Nacional”.

E ainda é tanto maior minha satisfação porque cumpro essa missão no cenário desta notável Instituição de ensino, a Escola de Guerra Naval, que simboliza as mais respeitáveis tradições brasileiras de capacitação, estudo, competência, e valor na formação dos marinheiros do Brasil.

Cumprimento os organizadores deste Encontro; permito-me parabenizá-los pela excelente e oportuna seleção dos temas que compõem a estrutura do evento e, sobretudo, louvo a escolha dos palestrantes ilustres, que por seus títulos e certamente suas sugestões, hão de ajudar-nos a refletir e pensar os desafios contemporâneos em torno das questões de Defesa Nacional.

O conceito e os compromissos da política de Defesa Nacional assentam suas raízes profundas nos próprios fundamentos republicanos do Brasil, os objetivos e princípios organizatórios do Estado Democrático de Direito, para a construção do destino da Nação, e o exercício das garantias, direitos e obrigações de nossa cidadania, nas legítimas aspirações do nosso povo.

É um dever de todos os brasileiros conhecê-los e defendê-los.

O caminho de assegurarmos a inserção do Brasil no desenvolvimento atual do mundo; de realizarmos nosso progresso econômico, cultural e tecnológico com inclusão social crescente, que democratiza a sociedade e viabiliza o regime de igualdade de oportunidades; garantirmos a defesa do nosso território, nossos mares, nossas fronteiras, nosso espaço aéreo, nossa visão solidária e fraterna de convivência dos povos, nossa vida.

Defesa de um Estado Democrático de Direito, forte, decidido, com Forças Armadas capacitadas e treinadas, assegurando o cumprimento de tarefas que o exercício da soberania assegura para os desafios de hoje e amanhã.

O século XXI começa com o mundo se tornando cada vez mais inseguro. A grande Instituição internacional, plantada após a 2ª Guerra Mundial, a ONU – para a missão de administrar e assegurar as condições da paz, precisando da solidariedade de todos nós e do nosso esforço comum – países maiores e menores – para que se torne capacitada e apta, e eficaz à consecução de sua missão intransferível e irrenunciável: trabalhar a paz mantê-la.

Vivemos fatores de desequilíbrio que se generalizam e ampliam. O terrorismo criminoso e nefasto e a natureza da guerra para combatê-lo, que não pode aumentar a exacerbação dos conflitos. Incapacidade de pensar a convivência das nações e dos povos.

Assimetrias sociais e humanas insuportáveis e inexplicáveis: expansão da pobreza externa, os fluxos migratórios, o comércio, o meio ambiente, a vida no planeta, que já não tem a magnitude imaginária de um universo, mas, simplesmente, nossa modesta e conhecida aldeia, comum a todos nós, por todos acompanhada e sentida.

O desafio de corrigirmos esse incompetente curto circuito entre a capacitação admirável da inteligência contemporânea, que produziu a revolução do conhecimento científico e tecnológico, o conseqüente crescimento da capacidade produtiva quase desmesurada, e a paralisia do atraso das relações sociais, econômicas, financeiras, políticas, jurídicas, que não se disciplinam para o destino natural da inclusão social.

O cenário permanece com a nódoa dos conflitos perigosos, que confirmam a exclusão crescente de grandes parcelas da população humana. Concentração da riqueza e da renda, quase obscena, contrastando com a iniqüidade do abandono e do desrespeito à dignidade da pessoa humana, que é o paradigma ético de nossa civilização.

São políticas as preocupações maiores do nosso tempo. A Política de Defesa Nacional é a equação adequada, de um lado, entre os nossos valores e aspirações, nossa realidade e nossos meios; e de outro lado o jogo de poder entre as nações, suas tensões, instabilidades, crises e conflitos.

A política de preservarmo-nos cordial e altivamente, crescermos, e darmos a contribuição possível ao ordenamento de um mundo digno e de paz.

Sabemos, de algum tempo, que as gerações contemporâneas são as primeiras, na História, que alcançaram a capacidade de destruir o planeta ou destruir a humanidade. Foi uma conquista inédita e terrível. O desafio é participar da construção das forças que não permitirão a catástrofe.

A 2ª Guerra mundial se concluiu triunfante, a partir da mobilização do Ocidente, determinado a derrotar a insanidade e a paranóia do Nazismo, na convocação da eloqüente Carta do Atlântico, de 1941, em instante extremamente perigoso ao destino do ser humano.

A conclamação vitoriosa foi a dos ideais da Democracia e das Liberdades, organizatórios de um novo tempo da humanidade. Com duas diretrizes símbolos da sociedade democrática universal a conquistar: o direito que tem cada povo de escolher a forma de governo sob a qual quer viver; e a garantia a todos os homens e mulheres, de todos os países, a uma existência livre do medo e da necessidade.

Deste holocausto de meados do século XX participamos e perderam suas vidas, lutando, centenas de brasileiros nos mares do Atlântico, ou nas terras e nos ares da Europa.

A política de Defesa Nacional reúne as energias do nosso povo, as preocupações do seu governo, a competência e mobilização de suas Forças Armadas.

E acompanha o desenho do mapa estratégico do mundo identificando-lhe a evolução próxima e futura, para colaborarmos, segundo nossos valores culturais e éticos, e nossos princípios fundamentais, no exercício de nossa soberania, para o destino de paz que almejamos, no mundo.

No alvorecer deste século XXI, acompanhamos os Estados Unidos e a União Européia, na América do Norte e na Europa; a importância significativa da Ásia, no crescente desenvolvimento da China, da Índia, do Japão. A situação do Paquistão e das Coréias, do Sul e do Norte.

A problemática de Taiwan. O aprimoramento democrático da África do Sul; o abandono e a desolação na miséria extrema do continente Africano.

As responsabilidades da ONU – Organização das Nações Unidas - a grandeza dos seus encargos, a tarefa de seus organismos econômico e social, a serem redimidos pela retomada do destino que os inspirou: o Banco Mundial, o FMI, a OMC, e seus setores social e ecológico, e suas missões de Força de Paz, para a tarefa completa de ajudar a restaurar a integridade decomposta da estrutura do Estado socorrido, e simultaneamente garantir-lhe a segurança interna.

E aqui, em nossa América do Sul, continuar e insistir no velho sonho, hoje princípio constitucional nosso de integração e cooperação econômica, social, política, cultural, buscando traduzirmos nossos compromissos, sempre e por toda parte, de vizinhos e irmãos, com uma voz de compreensão comum, de solidariedade recíproca, voz una, voz forte, sem acentos de liderança nem hegemonia, voz de paz e de fraternidade, que vá, pouco a pouco, palmo a palmo, abrangendo toda a nossa América Latina.

CENÁRIO MUNDIAL – VISÃO POLÍTICO-ESTRATÉGICA

Na atualidade, observamos a preocupação com a internacionalização e expansão do conceito de segurança. A segurança extrapolou o nível nacional, havendo alcançado o regional e o internacional. As expressões segurança regional, internacional e coletiva, passaram a ser novas e crescentes cogitações.

Ao expandir-se, o conceito passou a abranger pessoas e problemas emergentes como as questões ambientais, os direitos humanos, a miséria, a fome e a saúde. Nesse processo evolutivo, a segurança transcendeu o ambiente militar, mas o poder decisório nas questões a ela afetas manteve-se sempre concentrado junto ao mais elevado nível do poder político.

O planejamento de maior projeção do Brasil no cenário mundial deve levar em conta as ameaças no campo internacional. Afinal, veladas, imprevisíveis ou explícitas, elas sempre existirão.

O CENÁRIO MUNDIAL – VISÃO POLÍTICO-ESTRATÉGICA

A partir do término da bipolaridade, a chamada guerra-fria, o cenário mundial adquiriu novos contornos e nova dinâmica, inaugurando um ordenamento político com peculiaridades próprias.

Na dimensão militar, os Estados Unidos da América impuseram a hegemonia, dispondo de ampla capacidade econômica que sustenta seu incontrastável poderio bélico.

A dimensão não estatal ganhou força, ao compor o complexo das relações horizontais entre comunidades que desconhecem fronteiras tradicionais e obedecem apenas a interesses e valores próprios.

Nesse contexto, redefinem-se, continuamente, as relações de poder e de autoridade entre agentes públicos e privados. Os Estados têm limitadas condições de interferir e controlar o que ocorre no âmbito dessas “novas fronteiras”.

Assim, as atuais relações políticas resultam em complexas interações entre os agentes. Em visão mais abrangente, pode-se afirmar que o poder mundial se encontra até pulverizado e em complexa relação de interdependência com os principais atores das diferentes dimensões de poder.

De acordo com esse entendimento, aumentou a probabilidade de emergirem crises internacionais e conflitos armados, fato que se pode atestar ao apreciar a conjuntura internacional.

O mundo moderno, regido por essa complexa estrutura de poder, é marcado ainda por fortes assimetrias nos campos econômico, científico-tecnológico, social e militar.

As nações que conseguem se beneficiar dos adventos da globalização e dos resultados da revolução tecnológica, desenvolvem-se e conseguem elevar o nível de bem-estar de seus povos.

Contudo, grande parte dos Estados encontra-se marginalizada, enfrentando dificuldades para manter a estabilidade de suas instituições, enquanto a miséria grassa incontida.

Essa brutal assimetria, aliada à conscientização pelos excluídos de sua impotência para reverter a situação, tende a alimentar tensões nos relacionamentos internacionais e a gerar crises e conflitos.

As ações do terrorismo internacional, fundadas em questões étnicas, religiosas e de cunho nacionalista, apresentam-se como outras novas ameaças ao Estado Democrático. Outras formas dessas ameaças são o narcotráfico e os crimes transnacionais.

Os países mais ricos, inseridos em seus respectivos blocos econômicos, paradoxalmente, combinam discurso liberal com postura protecionista. Ao mesmo tempo, preocupados com a situação político-estratégica reinante, aqueles países destinam recursos crescentes às suas forças armadas.

Essa é uma realidade do mundo atual que deve merecer a atenção de todos, principalmente daqueles responsáveis por assuntos de segurança e defesa que não crêem na existência de ameaças externas simplesmente porque não conseguem vislumbrá-las.

A questão não pode ser negligenciada, especialmente pelos Estados que almejam elevar seus status no cenário mundial.

O entorno estratégico brasileiro, distante dos principais focos mundiais de tensão, vivencia processos de integração regional e de consolidação democrática, que tendem a aproximar os países da região. Contudo, é natural que ocorram divergências de interesses nesse entorno.

A fragilidade de algumas economias e de instituições democráticas, bem como a pobreza extrema, podem produzir conflitos que afetem a estabilidade regional. Apesar disso, vivemos há mais de um século sem qualquer conflito maior com nossos vizinhos e irmãos da América do Sul.

Por sua vez, a conjuntura brasileira, na perspectiva político-estratégica, caracteriza-se por acentuadas contradições. Há uma pujante e competitiva economia; um extraordinário potencial de recursos minerais, biodiversidade e água doce; e instituições nacionais que têm dado demonstrações de maturidade, uma vez que conseguem operar, regularmente, em meio a crises eventuais.

Em síntese, a plena vigência do processo democrático é uma realidade no País. No entanto, persistem os desafios – os ainda acentuados bolsões de pobreza; insatisfatória distribuição de renda; e uma Amazônia com baixíssima densidade demográfica, sem a efetiva presença do poder público e com extensas fronteiras, caracterizadas por indesejável vulnerabilidade.

Adicionalmente, a dependência que o país apresenta em relação ao comércio marítimo contrasta com as limitações existentes para a mais efetiva presença brasileira nas nossas águas jurisdicionais.

As Forças Armadas do Brasil necessitam de investimentos para atualizar-se e adequar-se à estatura político-estratégica do País.

PROJEÇÃO DO BRASIL NO CENÁRIO MUNDIAL

O esforço brasileiro para consolidar o processo de inserção internacional, como condição indispensável e incontornável para garantir o desenvolvimento e o progresso, passou a ser considerado interesse estratégico nacional.

A inserção internacional deve processar-se em diversos campos: no político, projetando o País e levando-o a participar dos fóruns de decisão internacionais do mais alto nível; no econômico, proporcionando a participação brasileira no comércio exterior em escala global e fortalecendo seu mercado interno; e no campo da segurança e da Defesa, onde se incluem as Forças Armadas, promovendo a necessária blindagem contra ameaças.

Ainda como instrumento da segurança no processo de inserção internacional, sobressai-se uma maior participação brasileira nas operações de paz, sob a égide do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e em observância aos interesses nacionais.

Intensificar a participação em operações de paz promovidas pelo Conselho de Segurança da ONU, a exemplo da decisão brasileira com respeito ao Haiti, é conduta que contribui eficazmente para a projeção do Brasil no cenário mundial.

Adicionalmente, é desejável que ocorram o consenso, a harmonia política e a convergência de ações entre nossos países vizinhos, visando buscar melhores condições para o desenvolvimento econômico e social, o que contribuirá para tornar a região mais coesa e mais forte, no caminho da integração.

Devem ser intensificados, também, a cooperação e o comércio com países africanos, principalmente os de língua portuguesa, e a consolidação da Zona de Paz e de Cooperação do Atlântico Sul.

A Política de Defesa Nacional atribui prioridade aos esforços de defesa da Amazônia e dos interesses nacionais no Atlântico Sul, o que significa, no campo da Defesa e da segurança, cuidados adicionais para a identificação de ameaças internacionais que possam afetar essas regiões.

Esses esforços envolvem tanto a diversificação como a ênfase nos relacionamentos internacionais, com atitudes pró-ativas, procurando eliminar, na origem, o surgimento de iniciativas que ameacem comprometer a soberania brasileira.

Por fim, a inserção internacional do Brasil deve merecer um planejamento estratégico que transcenda os ciclos governamentais e que busque, a médio e longo prazos, colimar resultados em favor do desenvolvimento sustentado do País.

O RESPALDO DO PODER MILITAR

De acordo com a Política de Defesa Nacional, a vertente preventiva da Defesa Nacional reside na valorização da ação diplomática como instrumento primeiro de solução de conflitos e em postura estratégica baseada na existência de uma capacidade militar com credibilidade, apta a gerar efeito dissuasório.

Por sua vez, a vertente reativa da defesa prevê que o País empregará todo o poder nacional, com ênfase na expressão militar, caso sofra agressão.

O preparo do Poder Militar brasileiro, parte preponderante da capacidade de Defesa Nacional, é condicionado pela Política de Defesa Nacional e decorre da Sistemática do Planejamento Estratégico Militar, da Política Militar de Defesa e da Estratégia Militar de Defesa.

De conformidade com esses documentos, o Brasil busca ampliar sua atuação política e econômica em nível global, a convivência fraterna e harmoniosa com as nações irmãs da América do Sul e a condição de potência militar de porte médio.

Adicionalmente, há o pressuposto de que a capacidade de defesa brasileira deve estar ajustada à estatura político-estratégica do País.

Em face desses condicionamentos, seguem-se algumas diretrizes estratégicas a serem atendidas pelas Forças Armadas brasileiras para a garantia das demandas de Defesa:

- manter forças estratégicas em condições de emprego imediato, para a solução de conflitos;

- dispor de meios com capacidade de salvaguardar as pessoas, os bens e os recursos brasileiros no exterior;

- incrementar a interoperabilidade entre as Forças Armadas, ampliando o emprego combinado;

- aprimorar a vigilância, o controle e a defesa das fronteiras, das águas jurisdicionais e do espaço aéreo do Brasil;

- aumentar a presença militar nas áreas estratégicas do Atlântico Sul e da Amazônia brasileira;

- proteger as linhas de comunicações marítimas de importância vital para o País;

- dispor de estrutura capaz de contribuir para a prevenção de atos terroristas; e

- dispor de capacidade de projeção de poder, visando à eventual participação em operações estabelecidas ou autorizadas pelo Conselho de Segurança da ONU.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Ministério da Defesa, no exercício da direção superior das Forças Armadas, tem produzido documentos que tratam de orientações e balizamentos para o aprimoramento da capacidade da Defesa Nacional.

As orientações para o preparo e o emprego das Forças Armadas brasileiras têm fundamento na Política de Defesa Nacional (documento atualizado e aprovado em junho de 2005) e, no que respeita ao setor militar da Defesa, detalhadas na Política Militar de Defesa (documento aprovado em setembro de 2005) e na Estratégia Militar de Defesa, ora em fase final de revisão.

A Sistemática do Planejamento Estratégico Militar (aprovada em agosto de 2005) uniformiza e dá um sentido único aos esforços exigidos nesse complexo planejamento.

A elaboração da Política de Defesa Nacional (PDN) contou com a participação de militares, diplomatas, intelectuais de diversos campos do saber e cidadãos.

Os demais documentos citados, de cunho estritamente militar, foram, ou estão sendo formulados com expressiva participação de representantes das Forças Armadas em esforço comum com o Ministério da Defesa.

No conjunto, representam relevante ganho na harmonização de entendimentos e de percepções entre as Forças. Neste ponto, a capacidade bélica do País valoriza-se em face de uma maior integração conceitual das Forças.

Há, ainda, alguns desafios que devem ser vencidos para dotar efetivamente o Brasil de um Sistema de Defesa que assegure ao País o pleno exercício da posição que lhe cabe no concerto das nações e, dessa forma, lhe permita participar das conquistas e dos benefícios da ciência e da tecnologia mundiais.

O frágil conhecimento das necessidades de Defesa no Brasil é um desses desafios. Talvez, seja o mais relevante deles. (?) Por que o cidadão brasileiro tributa pouca importância aos assuntos que dizem respeito à Defesa de seu próprio País?

Como desenvolver uma mentalidade de Defesa e, sobretudo, a capacidade de Defesa compatível com a natural estatura política do país no cenário mundial, sem deixar de atender a outras necessidades ingentes e gritantes, como o resgate da imensa dívida social que herdamos, que dura desde sempre e que exclui imensos contingentes de nossa população?

Este é o desafio que temos pela frente. E vamos vencê-los unidos, enquanto povo e Nação.

Waldir Pires é o Ministro da Defesa do Brasil - InfoRel