19 janeiro 2010

Ideais e salário atraem brasileiros a missão

No Haiti, soldados ganham mais do que no Brasil e podem economizar maior parte do dinheiro, pois não têm despesas

País já gastou R$ 703,6 mi em esforço de paz no qual tem o comando e incluiu previsão de despesa de R$ 140 mi no Orçamento deste ano


LUIS KAWAGUTI

DO "AGORA"
FÁBIO ZANINI
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA - Foha de SP
 

Crescimento profissional, oportunidade de participar pela primeira vez de operações "reais", idealismo e pagamento em dólares são os fatores que levam militares brasileiros a se voluntariar para a missão de paz no Haiti.

Só militares de carreira podem se candidatar a uma vaga no contingente brasileiro da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti).


Isso significa que as Forças Armadas não levam ao Haiti os recrutas do serviço militar obrigatório. Segundo o Exército, sempre há mais candidatos para ir ao país caribenho do que vagas. A seleção é feita por critérios de tempo de serviço e desempenho nos treinamentos no Brasil.


"Servi para viver uma operação real e para diminuir a angústia daquele povo", disse o coronel de cavalaria reformado José Ricardo Aizcorbe, que esteve no Haiti em 2005.


O salário financiado pela ONU é outro atrativo, variando segundo patente e função. Um soldado é remunerado com US$ 972 mensais, que equivalem hoje a R$ 1.652. No Brasil, esse salário não passa de R$ 1.340. O salário para um coronel que sirva no Haiti chega a US$ 4.500 Como cada militar fica por seis meses no Haiti (e praticamente não há despesas durante a missão), a maioria se inscreve para voltar com uma poupança ou comprar um imóvel.


"Um médico estuda seis anos para operar, mas ele tem que ter um paciente ou vai ficar frustrado. Um militar do Exército tem que ir para o conflito. Além disso, no Haiti você ganha o triplo do seu salário", disse o major reformado Nélson Ricardo Fernandes, que serviu no Haiti em 2005. Alem disso, segundo ele, outros atrativos fortes são o nome da ONU e o ambiente multicultural vivenciado em uma missão como essa.
 

Gastos

Em seis anos de participação na Minustah, o governo brasileiro já gastou um total de R$ 703,58 milhões com o envio e manutenção de tropas. No ano passado, o Brasil utilizou 62% do montante previsto com missões de paz, sendo que a principal missão é no Haiti.


Para este ano, o Orçamento já aprovado pelo Congresso (e que está aguardando sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva) reservou um valor recorde. Serão R$ 140 milhões, um acréscimo de 10% sobre os R$ 125 milhões previstos inicialmente no ano passado.


Mas esse é o valor orçado pelo governo, não necessariamente o gasto. Em 2009, por exemplo, foram efetivamente gastos apenas R$ 79,52 milhões na rubrica "participação brasileira em missões de paz", segundo o site Contas Abertas.


Isso equivale a 62% do dinheiro orçado. O restante passa a ser denominado "restos a pagar", podendo ser gasto em 2010. O governo não informou a razão de não ter usado todo o dinheiro previsto.


A Minustah é a principal missão de paz internacional integrada pelo Brasil, mas há outras (no Timor Leste, por exemplo), em que os contingentes são bem pequenos.

O Brasil tem o comando da tropa e o principal contingente, com 1.266 militares. No total, a missão da ONU no Haiti tem Orçamento anual de US$ 638 milhões, o que significa dizer que o Brasil sozinho responde por cerca de 12,5% desse total.


De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, entre as principais razões para o Brasil chefiar a parte militar da Minustah estão a tradição de participar em missões de paz que têm autorização do Conselho de Segurança e contam com o consentimento do estado anfitrião (o pais já mandou tropas a Suez, Angola, Timor Leste, entre outros), o valor do 4º artigo da Constituição sobre a "defesa da paz" e a identificação entre os países, que possuem problemas estruturais semelhantes.


Contudo, a Folha apurou que, além dessas razões, pesaram na decisão de participar da missão o interesse do país em uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU e a possibilidade de treinar tropas em situação de combate real, tendo parte das despesas reembolsadas pela organização.
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