15 novembro 2006

Exército brasileiro adquire 240 tanques Leopard 1A5

O recente anuncio da aquisição por parte do exército brasileiro de 240 carros de combate Leopard-1, na sua versão A5, surgiu de uma forma um pouco surpreendente.

Embora ainda não se conheçam muitos detalhes sobre os planos exactos do exército brasileiro para a incorporação desses veículos, há algumas notas que podemos tomar relativamente ao que se espera para o futuro próximo.

Antecedentes da compra

Quando em 1997 o Brasil começou a receber os seus primeiros carros de combate Leopard-1, abriu-se uma nova página na história das forças blindadas brasileiras ao romper com o que até ali tinha sido a adopção de veículos blindados de origem norte-americana. Desde os M-8 com tracção 6x6 de que resultou a família de blindados sobre rodas URUTU/CASCAVEL passando pelos pequenos M3 e pelo M-41C, também de origem norte-americana.

O M-41C, foi aliás durante muito tempo, o mais poderoso carro de combate do exército brasileiro. Durante os anos 80, a industria brasileira procedeu ao repotênciamento dos M-41C, procedendo a alterações significativas, entre as quais esteve a alteração do calibre de 76mm para 90mm, trabalhando o diâmetro interior do cano da peça principal do carro.

Esteve também em apreciação o fabrico no Brasil de um carro de combate principal, que se chamaria Osório, do qual chegaram a ser fabricados protótipos, de que resultaram o EE-T1 e EE-T2, que no entanto nunca chegaram a ser fabricados. Entre as razões para o cancelamento do projecto encontraram-se a dificuldade em encontrar comprador no mercado internacional, e o desinteresse do exército brasileiro, num período de hiperinflação, em que ainda por cima se assistia a uma redução da força militar argentina, sempre vista pelos militares brasileiros como a principal ameaça militar terrestre.

Com o fim do projecto brasileiro de um tanque próprio (como oposição ao TAM argentino) e sendo evidente que as forças armadas brasileiras se encontravam nos anos 90 numa situação de clara inferioridade foi decidido adquirir carros de combate em segunda mão.

Foram adquiridos 128 Leopard-1 adquiridos à Bélgica e posteriormente mais uma centena de M-60A3/TTS adquiridos aos Estados Unidos, e que foram até recentemente os mais poderosos carros de combate ao serviço na América do Sul.

Porém, outras necessidades começaram a tornar-se evidentes:

Por um lado, tratando-se de veículos com alguns anos e sendo conhecidas as condições de clima que não ajudam à conservação dos veículos, as necessidades de manutenção dos veículos mais antigos têm tornado a garantia de operacionalidade dos veículos cada vez mais cara.

Vários países da América do Sul anunciaram novas compras de equipamentos militares, deixando o Brasil numa situação desvantajosa e algo comprometedora.

Leopard-1 da Bélgica: Os primeiros Leopard

Os primeiros blindados Leopard brasileiros são como sabemos de origem belga. Aquele pais europeu adquiriu os seus primeiros Leopard-1 em 1968. Logo em 1975 sofreram uma pequena alteração, com a inclusão de caixas de transporte laterais e de uma manga térmica na peça principal de 105mm.

Estavam também equipado com sistema de controlo de tiro com que incluia equipamento óptico parcialmente controlado por um computador rudimentar.

EEm 1986, começou um extensivo programa de modernização que passou pela modernização do sistema de controlo de tiro, equipado com um visor térmico (que permite ver os alvos de noite identificando o calor que emitem) e telémetro a laser (equipamento para determinar a distância do alvo), mas apenas 132 tanques foram modernizados, não se procedendo a qualquer alteração nos restantes. Desses restantes (fabricados entre 1968 e 1970) 128 unidades foram vendidas ao Brasil.

Portanto, isto deixa o Brasil com carros de combate Leopard-1 que na passagem do milénio, têm trinta anos de idade, tendo os seus sistemas de controlo de tiro algo desactualizados.

Aliás, o Brasil vai colmatar essa brecha com a aquisição pouco depois de cerca de uma centena de carros M-60A3/TTS, que eram efectivamente mais sofisticados que os Leopard comprados da Bélgica, por possuírem um sistema de visão térmica e controlo de tiro globalmente mais sofisticado..

A presença destes dois tipos de blindados no exército brasileiro, implicou naturalmente a existência de dois canais distintos para fornecimento de peças de reposição, com os custos que isso necessariamente implica.

No inicio os carros de combate M-60 foram colocados no sul do país, no estado do Rio Grande do Sul, onde se considera pelo menos em teoria estarem as principais ameaças pelo menos do ponto de vista teórico, tendo sido deixado aos carros Leopard-1, funções que se podem considerar de segunda linha, e isto mesmo tendo o Brasil continuado a operar algumas quantidades cada vez menores de carros M41C, que foram modernizados nos anos 80 pela própria industria brasileira.

O Leopard-1A5 de origem alemã

O processo de modernização dos Leopard, foi naturalmente também considerado no seu país de origem a Alemanha, onde entre 1986 e 1992 um total de 1300 carros de combate foram modernizados.

A principal e mais significativa alteração aos anteriores Leopard-1 foi no sistema de controlo de tiro. O novo sistema EMES-18 da Atlas-Elektronik (agora chamada Rheinmetal Defense), que inclui um sistema de visão térmica

Além disso, entre as outras grande diferenças - que permitem identificar exteriormente o Leopard1-A5 é o perfil da torre, que tem um novo desenho e um reforço adicional lateral que acaba por alterar o perfil, ao mesmo tempo que aumenta consideravelmente a protecção.

A protecção, também é aumentada com a inclusão de «saias» blindadas na lateral do veículo.

O sistema de controlo de tiro do Leopard-1A5, é idêntico ao que foi instalado no mais pesado e melhor armado Leopard-II que é a família de tanques que complementou e substituiu o Leopard-1 na Europa.

Trata-se de um equipamento relativamente moderno e também adequado para as necessidades do Brasil.

Nos dias de hoje, continua a existir em muitos meios brasileiros uma certa nostalgia relativamente aos carros de combate desenhados pela ENGESA EE-T1/T2 Osório), que poderiam eventualmente ter permitido ao Brasil uma certa independência no fabrico de carros de combate pesados, que hoje não tem.

Também é afirmado que o Osório era mais adequado para as realidades brasileiras por o seu peso ser inferior aos carros de combate europeus e americanos que acabaram sendo fornecidos em segunda-mão ao exército brasileiro.

Existindo provavelmente alguma lógica nesse raciocínio, a realidade é que em todos os países e forças armadas do mundo, os carros de combate não estão a ficar mais leves nem menos blindados. O movimento é exactamente o contrário.

Nas proximidades do Brasil, começam a aparecer exércitos com carros de combate pesados, como é o caso do Leopard-IIA4 que o Chile vai receber, que demonstram que a “realidade brasileira” é também condicionada pela realidade dos países vizinhos.

O peso dos carros de combate, muitas vezes apontado como um grande problema, é hoje relativamente tratado pelas carretas de transporte, com grande numero de rodas, que distribuem o peso pelo chão, tornando um transporte de um tanque menos prejudicial que o transporte de mercadorias em veículos pesados.

Os carros Leopard-1A5 que deverão equipar o exército brasileiro nos próximos anos, relegando os Leopard mais antigos para reserva ou para unidades secundárias, são adequados para as potenciais ameaças que se podem deparar ao país.

As ameaças no sul do país, na fronteira com a Argentina, Uruguai e Paraguai, são cada menores, pois a possibilidade de integração entre as economias dos países do cone sul tornará inviável confrontações militares no futuro.

Embora outras nuvens se levantem de outras direcções, não é credível que outros países do continente tenham capacidade não só para possuir forças em quantidade suficiente para defrontar qualquer força blindada brasileira (necessariamente apoiada por forças adicionais combinadas) como também não é previsível que tenham capacidade para projectar essas forças dentro das fronteiras do país.

Embora o norte do Brasil se esteja a mudar com o tempo, e o numero de vias de acesso se multiplique, essas vias ainda são em numero muito pequeno, o que transforma qualquer avançada blindada, numa enorme coluna de veículos que facilmente podem ser descobertos e neutralizados.

Os únicos carros de combate que poderiam estar em vantagem táctica sobre os Leopard-1A5, são os futuros Leopard-IIA4 do Chile. Mas neste caso trata-se de um país que utiliza tais veículos em missões de defesa e não possui capacidade para projectar esses veículos para fora das suas fronteiras a distâncias significativas.

A opção por estes veículos, vem confirmar a necessidade de o Brasil dispor de meios capazes para com alguma facilidade proceder à transferência de unidades pesadas para algum ponto do território Brasileiro. Essa capacidade, se for desenvolvida, permitirá também desenvolver a capacidade brasileira para em caso de necessidade participar em operações substanciais de manutenção e imposição de Paz em qualquer região limítrofe, onde for achado necessário utilizar meios pesados.

Areamilitar.net
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