30 julho 2008

Equador anuncia fim do convênio por base militar dos EUA



Por Alexandra Valencia

QUITO (Reuters) - O Equador informou aos Estados Unidos na terça-feira que decidiu encerrar um convênio que permitia a Washington operar uma base militar na zona costeira do país, crucial para a luta contra o narcotráfico na região.

O convênio, feito em 1999, valeria por dez anos e permitia que os Estados Unidos utilizassem as instalações de uma base na cidade de Manta, a cerca de 260 quilômetros de Quito.

"O governo informou de maneira oficial à embaixada dos Estados Unidos a sua decisão de dar por concluído o Acordo de Cooperação entre o governo da República do Equador e o governo dos Estados Unidos", disse a chancelaria equatoriana, em um comunicado.

O presidente do Equador, Rafael Correa, anunciou desde que assumiu o cargo, em janeiro de 2007, que encerraria o convênio.

Segundo a chancelaria, a finalização do convênio foi acertada em conversas com funcionários norte-americanos. O término oficial do acordo é em agosto de 2009.

O pessoal estrangeiro ficará na base militar até novembro do ano que vem, mas depois irá embora.

"As instalações do posto norte-americano serão transferidas à autoridade correspondente da Força Aérea Equatoriana", acrescentou.

A Defesa na Agenda Nacional: O Plano Estratégico de Defesa



por Nelson Jobim

Assistimos a uma reconfiguração dos paradigmas políticos e econômicos que ditaram as relações políticas durante grande parte do século XX. Nesse contexto, o Brasil consolida sua posição no mundo, lastreada na estabilidade política e econômica conquistada na história recente. As atuais circunstâncias, bem como as políticas adotadas para aproveitá-las, permitiram ao país maior projeção internacional.

Esse processo implica novos desafios, com as novas responsabilidades que teremos que assumir progressivamente. Implica, ainda, a necessidade de planejamento estratégico e de flexibilidade para sua adaptação a cenários em permanente mudança.

O reposicionamento internacional do Brasil determina também novas posturas no campo da Defesa. Novos padrões de inserção internacional na área de Defesa dependem, porém, de nova postura da sociedade nacional. Faz-se necessário trazer as questões de Defesa de volta à agenda nacional, com a reversão da situação vigente desde o término do regime militar.

Nas últimas décadas, tais questões foram relegadas exclusivamente ao setor militar. O Poder Civil, que sucedeu ao regime militar, identificava, em seu imaginário, os temas de Defesa com repressão política. O tema, por isso, foi marginalizado durante os trabalhos da Assembléia Constituinte (1987–1988). As lideranças emergentes não queriam tocar em nada que pudesse vinculá-las ao regime anterior – nada que pudesse identificá-las com o “entulho autoritário”.

Ao retraimento do poder civil correspondeu a reação esperada no meio militar: os militares chamaram a si a tarefa de formular a política de Defesa. Como conseqüência necessária, os temas de Defesa saíram da agenda nacional. Executivo e Legislativo passaram a vê-los como exclusiva agenda militar

A perda de capacidade de investimento devido à crise fiscal que atingiu o país a partir da década de 1980 agravou a situação. Escassearam os recursos destinados à Defesa. A dificuldade de atender às necessidades provocou perda de capacidade operacional das Forças. Chegou-se ao ponto de fazer-se necessária a redução da permanência dos recrutas nos quartéis, pois não havia recursos para alimentar os contingentes.

No meio acadêmico, desenvolveu-se processo semelhante. Houve distanciamento. São poucos os estudiosos que se vincularam aos temas de Defesa. Há mesmo pesquisadores que foram questionados – por seus colegas – sobre as suas motivações ao orientarem-se para assuntos militares. Em outros países, tais temas são objeto de profundo interesse intelectual. Há abundante produção, em instituições civis, de estudos na área. O intercâmbio entre civis e militares dá ao Estado melhores condições de decisão e à sociedade maior controle.

Com o objetivo de corrigir tais distorções, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou, por decreto de 6 de setembro de 2007, o comitê para formulação de um PLANO ESTRATÉGICO NACIONAL DE DEFESA, presidido pelo ministro da Defesa e coordenado pelo ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos.

Integram o comitê o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, o ministro da Fazenda, o ministro da Ciência e Tecnologia e os comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, assessorados estes por seus respectivos estados-maiores. O relatório com as diretrizes gerais será entregue ao Presidente no dia 7 de setembro de 2008.

A elaboração do plano

Trata-se de um projeto ambicioso, focado em ações de médio e longo prazo. Pretende-se restaurar a estrutura nacional de Defesa. Constitui objetivo relevante a inserção das questões de Defesa na agenda nacional.

O trabalho divide os estudos em três grandes áreas temáticas:

1. a reorganização das Forças Armadas, incluindo o apropriado aparelhamento;
2. a reorganização da indústria nacional de Defesa, com ênfase na capacitação nacional, na autonomia tecnológica e em sua sustentabilidade; e
3. o futuro do Serviço Militar obrigatório e do sistema de Mobilização Nacional.

A elaboração do plano tem dois pressupostos fundamentais.

O primeiro é a divisão de competências entre civis e militares na área de Defesa:

- ao poder civil cabe a definição das hipóteses de emprego dos meios militares;
- às Forças Armadas cabe definir as probabilidades estratégicas para as hipóteses de emprego (preparação para o uso das Forças e condução desse uso).

O segundo consiste na manutenção da opção do Brasil pela dissuasão como estratégia de Defesa.

Da história do século XX vem a lição de que toda a sociedade arca com os custos, os sacrifícios e o sofrimento da guerra. Compete à sociedade – por intermédio das instâncias deliberativas do sistema democrático de governo e também pela participação direta nos debates – definir o que se espera de seus militares e prover-lhes os meios para as tarefas que lhes são atribuídas. Entre esses meios, ressalte-se, deve estar a melhor tecnologia disponível. Daí partirem os estudos de uma questão central: O que quer o Brasil de suas Forças Armadas?

O comitê designado pelo Presidente da República busca a resposta a essa indagação. As Forças vêm contribuindo para o esclarecimento da questão central. Fornecem elementos de sua experiência histórica e conhecimentos específicos únicos. Importante papel terá o debate com os representantes eleitos do povo e as discussões abertas com a sociedade – seminários e congressos acadêmicos.

Ao final dessa primeira etapa, estarão disponíveis os elementos necessários à decisão pelo Presidente e pelo Congresso Nacional. Somente então se poderá passar à efetiva reorganização das Forças, com o seu conseqüente aparelhamento, o que não elide decisões intercorrentes.

O diálogo com as Forças baseia-se na formulação de um conjunto de questões, aplicável a cada uma das hipóteses de emprego apresentadas pelo comitê.

A lista, não exaustiva, considera as contribuições dos militares e contempla circunstâncias de paz e de guerra:

1. monitoramento das fronteiras, do litoral e do território, incluindo espaço aéreo, em circunstâncias de paz;

2. penetração das fronteiras ou abordagem do litoral:
a) por uma força paramilitar com a ajuda velada ou a complacência de um Estado fronteiriço;
b) com engajamento aberto de Estado fronteiriço;

3. guerra contra forças muito superiores na Amazônia;

4. guerra em outra região do mundo, ultrapassando os limites de uma guerra regional controlada, com emprego efetivo ou potencial de armamento nuclear;

5. participação do Brasil em Operações de Manutenção da Paz das Nações Unidas;

6. participação em operações internas em garantia da lei e da ordem.

Sobre cada hipótese, as Forças responderam com uma proposta geral sobre a maneira pela qual cumpririam a tarefa. Responderam, ainda, às indagações específicas:

1. que mudanças organizacionais podem ser necessárias para aumentar a eficiência e a eficácia?

2. que mudanças doutrinárias (práticas operacionais) podem ser necessárias?

3. que equipamentos serão necessários? Que novos equipamentos precisam ser desenvolvidos ou adquiridos? Qual a ordem de prioridade entre os equipamentos necessários?

4. de que maneira cada Força Singular poderá colaborar com as outras duas?

Com base nas respostas das Forças a essas questões e a outras se instala o debate no comitê.

Veja-se a primeira hipótese de emprego. O monitoramento do território determina necessidades distintas para cada uma das Forças Singulares (águas, fronteiras e espaço aéreo).

O patrulhamento das águas jurisdicionais já é uma tarefa hercúlea. Dele depende a defesa de 3,5 milhões de quilômetros quadrados de mar[1], área onde se acumulam as reservas nacionais de petróleo e por onde trafega grande parcela do comércio do Brasil com o mundo.

Com cada Força discutem-se as necessidades específicas à execução de sua parcela no monitoramento do território. Coordenam-se, ainda, as necessidades das três Forças, para seu emprego combinado.

Das respostas à primeira indagação específica e dos debates subseqüentes poder-se-á encontrar a organização mais adequada para as Forças Armadas brasileiras.

Reorganização e reaparelhamento das Forças

A questão sobre a necessidade de mudanças no perfil e na organização de cada Força deve ser entendida da maneira mais ampla possível: da alocação dos efetivos pelo território nacional aos padrões de instrução da tropa.

Com o deslocamento, para as regiões Norte e Centro-Oeste, dos vetores de possíveis ameaças, que não se identificam de forma alguma com os países fronteiriços, um ponto de questionamento é o aquartelamento, hoje majoritariamente junto ao litoral.

O deslocamento do monitoramento para as fronteiras Norte e Oeste põe em questão o posicionamento das tropas do Exército, hoje majoritariamente a leste.

A avaliação de várias alternativas se impõe:

1. manter tal estrutura, ou
2. deslocar contingentes para outras regiões, ou
3. investir na mobilidade.

A última alternativa (3) substitui o paradigma “estar presente” por “poder estar presente”. Em vez de termos tropas em cada ponto, o país investiria em unidades de alta mobilidade e poder de fogo que poderiam deslocar-se, com rapidez, para qualquer área do território.

Todas as alternativas estão na mesa, podendo-se, inclusive, não adotar qualquer delas e, sim, uma combinação de todas.

Ressalte-se, ainda, que se discutem novos modelos com cada uma das Forças Singulares. Se, por, um lado, pode ser necessário reavaliar a distribuição das unidades do Exército, pode-se, por outro, debater quão adequada se mostra a concentração dos meios militares em centros urbanos.
Deve-se examinar também a revisão, ou não, dos atuais padrões de instrução. Nos conflitos recentes, há casos de forças superiores em todos os quesitos encontrarem dificuldades ao enfrentar exércitos que não dispõem de meios militares equivalentes. O mesmo se diga do combate a organizações não-estatais – estas, por vezes, com ramificações no crime organizado. Cabe indagar se o soldado brasileiro está sendo preparado para lidar com este tipo de conflito, tanto integrando a força com dotação de melhores meios quanto atuando como combatente de resistência.

A organização de cada Força Singular não pode levar em conta apenas as possibilidades de conflito convencional.

Em seguida, emerge a questão doutrinária: com a reorganização, necessário se faz rever, ou não, as práticas operacionais, com a intensificação da interoperabilidade das Forças.

Resolvidas essas questões, surge, então, o problema dos equipamentos.

Assim, a Estratégia Nacional de Defesa não se restringe a retomar o discurso do reaparelhamento das Forças Armadas.

O próprio termo “reaparelhamento” mostra-se inadequado. Não se pretende a simples reposição da capacidade perdida, ou seja, trazer o passado para o presente. A avaliação das necessidades e a construção de novas capacidades se relacionam com os desafios que se vislumbram nos cenários futuros. Tal procedimento altera a lógica que preside, hoje, a discussão sobre aquisição de equipamentos.

A nova avaliação de necessidades faz com que o equipamento deixe de ser um objetivo em si mesmo, e passe a ser uma ferramenta adequada a um objetivo. Identificam-se as tarefas a serem desempenhadas e, em seguida, os meios necessários ao seu cumprimento. Com isso, inaugura-se também a possibilidade de adoção dos mesmos sistemas nas três Forças.

É possível perceber o impacto de tal mudança no caso da aquisição de novos caças para a Força Aérea Brasileira. Em discussão há alguns anos, a opção em pauta era basicamente uma: adquirir, com base nos critérios definidos pela FAB, o modelo mais moderno possível, para que ficasse em serviço por um prazo relativamente longo.

Foram avaliados os modelos da chamada quarta geração e a concorrência internacional estava na fase final. Foi ela interrompida. Caso se mantenha a opção pela compra de aeronaves de quarta geração, deve-se incluir a capacitação da indústria nacional no conteúdo tecnológico da plataforma.

A interrupção do processo licitatório firmou a percepção de que não há decisão tomada: todas as propostas continuam na mesa.

A reavaliação das hipóteses de emprego abre novas possibilidades não contempladas pela sistemática anterior.

Sendo o monitoramento do território a tarefa principal, cabe questionar a prioridade da aquisição de novos caças em relação aos demais equipamentos e sistemas necessários. Uma das opções que agora se apresentam é o adiamento da compra, direcionando os recursos para outras quatro iniciativas, todas estreitamente vinculadas ao monitoramento do território brasileiro.

A primeira iniciativa seria a modernização máxima dos aviões já existentes, buscando-se a modernização dos sistemas de armas, até o limite da estrutura física dos atuais aviões.

A segunda seria ampliar os investimentos nos projetos brasileiros para desenvolvimento dos veículos aéreos não-tripulados (VANTs), tanto voltados para a vigilância quanto para o combate. Observe-se que o uso dos VANTs pode trazer inovações profundas também nas práticas operacionais das outras Forças.

A terceira iniciativa possível seria a busca de um parceiro internacional que domine as tecnologias envolvidas para o desenvolvimento de um caça de quinta geração. Esta última teria a desvantagem de retardar a disponibilização de aeronaves de última geração para a FAB, mas apressaria o processo de aquisição de tecnologias avançadas nesse segmento.

A quarta iniciativa seria o investimento maciço na formação de recursos humanos em tecnologias avançadas, em especial as necessárias para um conflito no espaço cibernético (cyberspace).

Ressalte-se que não se discute qual a solução mais barata, discute-se, isto sim, eficiência no cumprimento das tarefas.

O mesmo se aplica às demais Forças. Na Marinha, por exemplo, aplica-se aos debates sobre o papel de submarinos e navios de superfície na Defesa Nacional. Optando-se por dar maior peso ao emprego de um ou outro tipo de embarcação, a Marinha precisará investir nos sistemas de comunicação e vigilância, inclusive recorrendo ao apoio de satélites de comunicações e de vigilância.

Observe-se o dilema que se põe quanto à Marinha.

Tem a Marinha três grandes funções:

1. monitoramento das águas;
2. negação do uso do mar;
3. projeção de poder.

Como desenvolver essas funções? Devemos desenvolvê-las de forma igual ou deveremos optar por um desenvolvimento desigual, mas combinado? Se optarmos pelo desenvolvimento igual, corre-se o risco de sermos medíocres em todas elas. Se devemos optar pelo desenvolvimento desigual, mas combinado, a função prioritária deverá ser o monitoramento ou a negação do uso do mar ou, ainda, a projeção de poder? A questão é relevante e as opções estão na mesa.

Reorganização da Indústria de Defesa

A segunda grande área temática na elaboração do Plano é a reorganização da indústria de Defesa. Importante, nesse aspecto, é o tipo de indústria de Defesa que o país deseja e precisa.

O Brasil não pode mais aceitar a condição de, na melhor das hipóteses, produzir, sob licença, material desenvolvido em outros países.

O domínio da tecnologia é um objetivo consistente com a manutenção da capacidade dissuasória. A capacitação tecnológica nacional constitui requisito para a aquisição de equipamentos.

Observe-se, porém, que a intenção não é excluir para sempre uma trajetória de aquisição de equipamentos e de tecnologias alheias. Nesse primeiro momento, não se pode considerar a hipótese de investir recursos e tempo no desenvolvimento de tecnologias já disponíveis no mercado internacional.

Por outro lado, o país precisa absorver tais tecnologias e firmar sua capacidade de – com base nelas, de forma autóctone ou mesmo em cooperação com outros países – atender às suas demandas na área.

Embora a ação estatal seja imprescindível à sobrevivência da indústria de Defesa, o setor privado tem importante papel a desempenhar. As possibilidades de derivação das tecnologias de uso militar para o emprego civil tornam importante a participação do setor privado. Muitas tecnologias atualmente aplicadas na aviação comercial e executiva, por exemplo, vêm do desenvolvimento de aeronaves militares.

A interação entre institutos governamentais e privados, militares e civis, já existe. Os institutos militares desenvolvem, sozinhos ou em parcerias com instituições de pesquisa públicas e de empresas privadas, projetos de armamentos e equipamentos diversos (materiais defletores de radar, radares, mísseis, sistemas para VANTs etc.).

No entanto, as iniciativas nem sempre conseguem os resultados desejados, seja pela falta de uma moldura institucional para dar forma à cooperação, seja devido às incertezas orçamentárias, seja pelo distanciamento entre os atores.

Quanto às ações das instituições militares, ressalte-se que, entre as questões apresentadas a cada Força Singular, indaga-se quais as iniciativas previstas para o desenvolvimento das tecnologias necessárias. Há, também, a preocupação com a integração dos esforços das três Forças nessa área.

Os problemas na destinação de verbas públicas ao setor de Defesa prejudicaram o uso das compras governamentais como instrumento de estímulo à capacitação da indústria nacional. Muitas das empresas que conseguiram ocupar nichos no mercado o fizeram graças a exportações, tendo em vista que as encomendas internas não garantiam suporte para a continuidade de suas atividades.

Pelo Plano Estratégico Nacional de Defesa, o governo brasileiro deverá ter papel ativo nesse processo de consolidação da indústria nacional de Defesa. Poder-se-á definir procedimentos especiais de compras públicas para privilegiar o fornecedor nacional comprometido com programas de modernização tecnológica.

Poderão ser criados, até mesmo, instrumentos de participação governamental direta na gestão das empresas estratégicas do setor, como ações especiais do tipo Golden Share.

O Serviço Militar

Discutidas a estrutura das Forças e a indústria de Defesa, resta ainda a questão do serviço militar obrigatório.

Durante a maior parte do século XX, as Forças Armadas foram um nivelador republicano. Constituíram um espaço de oportunidades iguais para todos, onde se reproduzia um microcosmo da sociedade brasileira, tanto do ponto de vista social quanto geográfico.

Esse quadro mudou nos últimos tempos. Hoje, cerca de 95% dos recrutas são, de fato, voluntários. Só temos convocação obrigatória em circunstâncias específicas nas quais, entre os jovens voluntários, não se encontram alguns dos perfis necessários ao preenchimento dos requisitos técnicos das Forças.

Na prática, o serviço militar está-se tornando voluntário e perde a característica de espelho da sociedade. Percebem-se duas possibilidades para lidar com esse tema. Uma, aprofundar o processo que vem ocorrendo espontaneamente e tornar voluntário o serviço militar. A outra é a manutenção da obrigatoriedade, que pode, no entanto, tomar diversos rumos.

Se a opção for a obrigatoriedade, deve-se estudar o aproveitamento da estrutura existente e da experiência com o programa Soldado Cidadão (formação profissional para os recrutas) para aperfeiçoar a educação dos efetivos incorporados a cada ano, principalmente nas áreas técnicas e científicas.

Outra possibilidade a ser discutida é o restabelecimento da efetiva obrigatoriedade. De aproximadamente 1,5 milhão de jovens que se apresentam anualmente, apenas 600 mil entram em um processo de seleção, e cerca de 70 a 80 mil são aproveitados. Apenas cerca de 5% dos alistados são incorporados às Forças, e o Ministério da Defesa tem apenas referendado a auto-seleção.

É fundamental reavaliar os critérios para a seleção dos recrutas. Poder-se-ia verificar, por exemplo, a viabilidade de levar em conta, além do perfil funcional adequado às necessidades das Forças e da capacidade física e intelectual dos jovens, critério que visasse à obtenção, na tropa, da mesma heterogeneidade presente na sociedade.

É necessário, ainda, retomar as discussões sobre a regulamentação do serviço social obrigatório, do qual faria parte a qualificação do jovem para integrar-se ao esforço nacional em caso de mobilização, compondo uma reserva civil a ser empregada em situações de emergência.

Conselho Sul-Americano de Defesa

Dada a situação do Brasil no cenário internacional, que necessariamente implica ações também no campo da Defesa, vem amadurecendo a idéia de criar, com todos os países do continente, um Conselho Sul-Americano de Defesa. Proposta brasileira nesse sentido foi apresentada na Reunião Extraordinária de Chefes de Estado e de Governo da Unasul, em 23 de maio.

O governo brasileiro sugere que os países da região tenham um foro dedicado à análise e discussão dos temas de Defesa. Tal foro contribuiria para permitir consolidar o continente como zona de paz e cooperação, livre de conflitos, no momento em que a região ganha protagonismo no mundo.

A afirmação da identidade sul-americana é um dos objetivos da Unasul e o Brasil realça a conveniência de que tal afirmação se dê, também, no campo da Defesa.

As atribuições específicas do conselho estão em discussão e serão definidas por consenso entre as partes.

Entre as possíveis atribuições, destacam-se a implementação de medidas de fomento da confiança e da transparência e a coordenação de posições nos foros multilaterais sobre o tema. Tais medidas poderiam incluir, por exemplo, a discussão das políticas de Defesa de cada país, a elaboração de “livros brancos” e a integração das bases industriais de Defesa.

A indústria de Defesa demanda investimentos significativos que só se justificam pela existência de uma demanda adequada. Em face disso, caberia estudar a estruturação de cadeias de produção de material de defesa na região. Poder-se-ia aproveitar as possibilidades de cada país, gerando ganhos de escala que justificariam elevados investimentos.

A região ganharia, também, pela capacitação em tecnologias avançadas, com efeitos positivos em toda a estrutura produtiva de cada país.

A possibilidade de integração das indústrias de Defesa é real, mesmo em áreas intensivas em capital e tecnologia. Alguns componentes da fuselagem das aeronaves da Embraer, por exemplo, são produzidos no Chile (ENAER).

A expansão de ações como essa aumentaria a autonomia da região no suprimento de seus equipamentos de defesa ou de uso dual.

Quaisquer que sejam as atribuições dadas ao conselho, a proposta brasileira é de que este se constitua em foro de discussões, não se pretendendo que suas decisões vinculem as partes.
Nos fóruns multilaterais sobre Defesa[2], o conselho poderia coordenar, previamente, as posições da região, o que lhe daria maior expressão.

A proposta brasileira não prevê a criação de exércitos comuns ou de Forças Conjuntas de caráter permanente, tendo em vista a inexistência de ameaças comuns. Não se trata de uma aliança militar clássica.

Para o Brasil, a própria participação conjunta em Operações de Manutenção da Paz das Nações Unidas não implica a criação de estruturas militares permanentes com esse objetivo. O conselho poderia tornar-se uma instância de agregação dos esforços existentes, de modo a organizar o que vem sendo feito em contatos bilaterais entre os países envolvidos e entre eles e a ONU.

Algumas medidas que poderiam ser utilizadas pelo conselho são interações já existentes entre as Forças Armadas dos países da região. A cooperação para formação e treinamento de pessoal militar, por exemplo, é tradicional na região. As escolas militares brasileiras são, cada ano, freqüentadas por dezenas de oficiais de países vizinhos. Ao retornarem a seus países, esses militares contribuem para as boas relações regionais.

Esse intercâmbio, no entanto, é promovido isoladamente pelas Forças Armadas sul-americanas, quando deveria configurar-se como política dos Estados. Elevar tais iniciativas a esse patamar poderia ser uma atribuição do conselho.

Na base do conselho estariam os próprios princípios e valores compartilhados pelos países da região, entre eles a não-intervenção em assuntos internos e o respeito à soberania, à autodeterminação e à integridade territorial dos Estados.

Ademais, considera-se fundamental que, em suas atividades, o conselho leve em conta as condicionantes geopolíticas da região, como as relacionadas com as sub-regiões conformadas pela geografia. Deve-se ter em mente, por exemplo, as vertentes Platina, Amazônica e Andina, bem como a existência de sub-regiões voltadas para os oceanos Atlântico e Pacífico e para o mar do Caribe.

A Defesa na Agenda Nacional

A elaboração de um Plano Estratégico de Defesa Nacional busca evitar a repetição do erro de permitir que a urgência na solução de problemas leve à opção por medidas de rápido impacto que, no longo prazo, possam mostrar-se inadequadas.

O mais importante nesse processo, no entanto, é que se consiga recolocar as questões de defesa na agenda nacional. Não se trata apenas de mobilizar o governo, mas também de reinserir o tema no cotidiano da sociedade.

Os trabalhos em andamento demonstram que isso é possível. O diálogo entre civis e militares sobre as questões de defesa tem sido franco e aberto, fundado na mais absoluta transparência e no pressuposto de que todos os assuntos são passíveis de discussão. Parlamentares, empresários, acadêmicos, militares, políticos da base do governo e da oposição, todos esses grupos têm participado e participarão ativamente dos debates para a definição do que o Brasil quer de suas Forças Armadas.

O sucesso obtido até o momento permite entrever a efetiva viabilidade de garantir ao Estado brasileiro os meios adequados para a Defesa Nacional, com a participação e em benefício de toda a sociedade. Temos que pensar grande. •

[1]. Pode chegar a 4,5 milhões de quilômetros quadrados em decorrência do Plano de Levantamento da Plataforma Continental Brasileira.

[2]. Junta Interamericana de Defesa (JID), Comissão de Segurança Hemisférica da OEA, Conferência de Ministros de Defesa das Américas etc.

Militares da FAB na Red Flag visitam base de aeronaves não-tripuladas dos EUA

Cecomsaer

“Uma oportunidade rara. Estamos vendo um tema futurístico”.

Com essa frase o Brigadeiro-do-Ar Machado, Comandante da FAE 103, expressou seu sentimento sobre a visita à Base Aérea de Creech, Nevada, especializada em aeronaves não-tripuladas, os UAV (Unmanned Aerial Vehicle), da Força Aérea dos Estados Unidos, como parte da programação de visitas ofertadas ao Brasil.

A comitiva foi recebida pelo Comandante da 432nd Air Expeditionary Wing (ou Base Aérea de Creech), Coronel Chris Chambliss, que tem importante participação na guerra contra o terror, uma vez que as aeronaves sob seu comando, do tipo MQ1 Predator e MQ9 Raptor, voam diariamente no Afeganistão e no Iraque, controladas a partir da Base Aérea de Creech por meio de uma complexa e poderosa rede de satélites e conexões internacionais de fibra ótica. As informações coletadas em tempo real ainda podem ser distribuídas por todo os Estados Unidos, ou mesmo para qualquer base norte-americana no mundo.

A Base Aérea de Creech está em plena expansão. Obras estão aumentando a capacidade de abrigar alunos para os diversos cursos das aeronaves e do sistema não-tripulado, atendendo a um desejo do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que está dando grande incremento a esta vertente militar, investindo muito também na aquisição e no desenvolvimento de novos modelos com maiores capacidades e que atinjam os objetivos da USAF para os próximos anos.

A visita iniciou-se no 757th Maintenance Squadron, que é o esquadrão responsável pela manutenção dos dois modelos. No hangar de serviços, foi possível observar de perto o aparato tecnológico embarcado na aeronave, tanto para cumprir missões de sensoriamento quanto plataforma de armas. Além do mais, chamou a atenção a facilidade para o desdobramento tanto das aeronaves, que são desmontáveis e acondicionadas em embalagens apropriadas, quanto dos meios de comando e controle de terra que também possuem compartimentos padronizados.

Em seguida a comitiva foi para o 42th Attack Squadron, onde o comandante dessa unidade, Tenente-Coronel Greene, apresentou as grandes capacidades bélicas do MQ1 Predator e do MQ9 Raptor como plataformas de ataque, municiados, especificamente, com armamento de utilização AR-SOLO, como bombas e mísseis. Ele não possui sistema de auto-defesa e, por isso, atua somente em espaço sob controle total da USAF.

Já no 11th Reconnaissance Squadron, ou Esquadrão de Reconhecimento, o Tenente-Coronel Spinetta mostrou como nas suas aeronaves são embarcados os mais variados sensores, para o dia e para a noite, para “iluminação” de alvos com laser ou para uma simples filmagem de algum objetivo no solo. As informações obtidas e tratadas por esse esquadrão atendem não só a Força Aérea como outros muitos departamentos e agências dos Estados Unidos, como o Department of Homeland Security, ou Segurança Interna, e das demais Forças Armadas, para atividades policiais e de defesa.

Sem dúvida nenhuma, a avanço tecnológico aqui presenciado só é comparável ao esperado crescimento dos tipos e números de missões a serem cumpridas pelos vôos não-tripulados no futuro. Seu emprego é crescente e, como afirmou, em entrevista, o Coronel Chris Chambliss estão rapidamente substituindo os vôos tripulados.

Caracas quer tanque de última geração

Venezuela negocia compra do T-90, o mais avançado do arsenal russo



Roberto Godoy

A lista de compras de sistemas militares que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, levou a Moscou, foi frustrada - havia submarinos, novos caças e tanques pesados na relação. Não deu certo. No dia 23, em entrevista coletiva no gabinete do presidente Dmitri Medvedev, Chávez só pôde anunciar uma encomenda que, de resto, já estava definida desde 2007 - a aquisição dos avançados mísseis antiaéreos Tor-M1 e M2, iguais aos vendidos para o Irã.

(TOR M2)

O valor inicial do contrato é estimado em US$ 290 milhões, cobrindo um número não revelado de baterias de lançamento. Os mísseis vão atuar integrados a estações de radar importadas da China.

O Tor-M1 é uma arma sofisticada. Montado sobre um veículo blindado, o disparador transporta oito mísseis prontos para serem usados. O tempo de detecção do alvo é de oito segundos. Os sensores podem rastrear até 48 alvos simultâneamente, dando prioridade aos alvos pelo grau de ameaça. A ogiva de fragmentação pesa 15 quilos.

Os outros equipamentos, foram considerados "sob negociações". Houve, entretanto, uma surpresa: o Ministério da Defesa admitiu, em Moscou, que poderá fornecer tanques pesados T-90C, os mais avançados do arsenal russo. São grandes máquinas de guerra, pesando 46 toneladas e armados com canhões de 125 mm - a munição é supersônica, com guia a laser - mais duas metralhadoras e um lançador de mísseis antiblindados.

Modernos, construídos com novas ligas metálicas de baixo peso e alta resistência, levam grande carga eletrônica digital a bordo. Medem 9,5 metros de comprimento. Têm autonomia de 750 km, com três tripulantes. Preço: US$ 3,5 milhões. Chávez quer 250 unidades, em dois lotes de 125.

Bombardeio da Colômbia mata 10 guerrilheiros



Ao menos dez guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) morreram em um bombardeio da Força Aérea perto da fronteira com a Venezuela, disseram ontem autoridades locais. Uma fonte da Força Aérea afirmou que entre os mortos está o chefe guerrilheiro José Felipe Rizzo, o Jurga Jurga.

Ainda ontem, a Corte Suprema de Justiça do país ordenou a libertação do senador Luís Fernando Velasco, do Partido Liberal, por supostos elos com paramilitares.

EUA, BRASIL ETC.



Nelson de Sá

Enquanto crescem por aqui as reações à volta da 4ª Frota Naval dos EUA, voltada à América Latina, a agência chinesa Xinhua destacou ontem uma operação conjunta na Argentina. Relata que as marinhas de Argentina, Brasil, Chile "e do Comando Sul dos EUA" realizaram um exercício "ambicioso" na base naval de porto Belgrano.

Seria para "melhorar a coordenação e as comunicações durante missões das Nações Unidas".

Ação da Otan no Afeganistão deixa de 50 a 70 mortos



Uma ofensiva da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na província afegã de Khost (sudeste do país) matou ontem entre 50 e 70 insurgentes do Taleban, segundo autoridades regionais. Dois militares da Otan também morreram. Os ataques aéreos começaram durante a manhã e foram organizados para rechaçar uma ofensiva de insurgentes no distrito de Spera, perto da fronteira com o Paquistão, disse o governador de Khost, Arsala Jamal. A violência no país aumentou nos dois últimos anos, depois que o Taleban se reagrupou e insurgiu-se contra o governo do presidente Hamid Karzai.

Dados sobre Farc são ''irrelevantes'', diz assessor de Lula

Marco Aurélio Garcia afirma que preocupação dos EUA sobre deslocamento da guerrilha para o País é infundada


Denise Chrispim Marin, BRASÍLIA

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, disse ontem que, em algumas ocasiões, o governo colombiano passou ao Brasil dados sobre a guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Mas, segundo ele, esses repasses foram entregues antes da visita do presidente Luis Inácio Lula da Silva à Colômbia, nos dias 19 e 20, e continham apenas "informações irrelevantes" sobre as Farc.

Em entrevista ao Estado, o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, informou que Bogotá entregou ao País informações sobre as "conexões" das Farc no Brasil. Em especial, sobre narcotráfico. Há uma semana, em visita ao Brasil, o secretário de Segurança Interna dos EUA, Michael Chertoff, alertou para a possível infiltração das Farc na Amazônia.

De acordo com García, o presidente colombiano, Álvaro Uribe, está no caminho de concluir até o fim de outubro um acordo com as Farc. Segundo ele, o governo da Colômbia tem buscado "com muita competência" a desmobilização das Farc nos últimos meses. Numa frente, manteve canais de negociação com os líderes da guerrilha. Em outra, acirrou os ações militares e as operações de resgate de reféns.

"É falsa a impressão de que a Colômbia está agindo militarmente e está rompido com as Farc. A relação de forças foi alterada, em favor do presidente Uribe", afirmou Garcia, de Caracas, ao Estado. "As condições são favoráveis para que, em dois ou três meses, haja novidades nas negociações que estão em curso", completou.

Desde o início do ano, o governo colombiano vem acumulando sucessos na luta contra as Farc.

No dia 2, conseguiu a libertação de Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência seqüestrada em 2002, e de outros 11 reféns. Antes, havia obtido a rendição de líderes rebeldes e, numa controvertida ação em território do Equador, eliminado Raúl Reyes, número 2 da guerrilha.

Segundo Garcia, no dia 19, em Bogotá, Uribe mencionou seus feitos contra as Farc ao presidente Lula, que reiterou a disposição do Brasil de colaborar para uma solução negociada do conflito.

Mas, relatou, o colombiano não apresentou pessoalmente a Lula nenhuma solicitação sobre as Farc.

Para o assessor, a suspeita de deslocamento das Farc para o território brasileiro, levantada por Chertoff, é infundada. O Ministério da Defesa reiterou a versão, ao argumentar que há mais de dez anos as Farc não tentam se mover na direção do Brasil.

Conselho sem função



Tem razão de ser o questionamento do ministro da Defesa colombiano, Juan Manuel Santos, sobre o papel que terá o recém-criado Conselho Sul-Americano de Defesa. "Para que é isso, ainda não sei", disse ele em visita aos EUA.

Cenário adequado, já que a única intenção que se deixa vislumbrar para a criação do novo organismo, proposta pelo Brasil, é excluir Washington da tomada de decisões de defesa no subcontinente. Sendo os EUA uma superpotência com interesses reais na região, tal objetivo soa irreal.

A idéia de criar o conselho surgiu em momento inoportuno. Não dá para falar em políticas de defesa continentais quando sérias rivalidades vividas pelos países sul-americanos são internas – desde as mais ruidosas, como a entre Colômbia e Equador, a outras menos notáveis, como a disputa Peru-Bolívia.

O próprio Brasil, autor da idéia, parece não saber muito bem para que servirá o novo conselho.

"As atribuições específicas do conselho estão em discussão (...). A proposta brasileira é de que este se constitua em foro de discussões, não se pretendendo que suas decisões vinculem as partes", escreveu o ministro Nelson Jobim em recente artigo na revista "Interesse Nacional".

Órgãos de discussão já os há aos montes. Outras das possíveis atribuições do conselho, como a integração dos sistemas produtivos das indústrias de defesa sul-americanas, podem ser efetuadas muito bem sem ele.

A resistência da Colômbia parecia ter enterrado a idéia do conselho, mas o país voltou atrás e decidiu participar. As condições impostas para tal – a tomada de todas as decisões por consenso e a rejeição total a grupos violentos (leia-se Farc) – podem provocar a defecção de outros países. Além disso, a permissão para que os integrantes mantenham acordos bilaterais de cooperação militar com outros países anula qualquer possibilidade de tirar os EUA de cena – e torna ainda mais sem sentido a criação do organismo. Um bom conselho seria deixá-lo de lado.

FRANÇA e RÚSSIA disputam parcerias em novo PLANO BRASILEIRO DE DEFESA

Ministro Mangabeira Unger, sobre a ampliação de gastos: "Nada é mais caro do que ter independência nacional"


Daniel Rittner, De Brasília

Às vésperas de o Brasil lançar um ambicioso plano de defesa, cujo anúncio parcial está previsto para 7 de setembro, representantes da França e da Rússia intensificam seus contatos com o governo brasileiro para acertar os ponteiros de uma "parceria estratégica" no setor. O novo secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Nikolai Patrushev, estará hoje em Brasília para discutir temas como o desenvolvimento conjunto de um veículo lançador de satélites (VLS) e a transferência de tecnologia para a construção de caças supersônicos.

Na semana passada, foi o almirante francês Edouard Guillaud, principal assessor para assuntos militares do presidente Nicolas Sarkozy, quem percorreu gabinetes da capital para especificar os pontos de uma associação com o Brasil.

"Estamos construindo parcerias que talvez não tenham precedentes", afirmou ao Valor o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger. Paralelamente, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, percorre até quarta-feira uma série de bases militares americanas. Jobim viajou acompanhado dos comandantes da Marinha, Júlio Soares de Moura Neto, e da aeronáutica, Juniti Saito, além do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Clifford Sobel.

Há poucas possibilidades de uma associação mais ampla, no entanto, devido às resistências americanas em trocar conhecimentos e transferir tecnologia de seus equipamentos para outros países - uma pré-condição sempre ressaltada por Mangabeira e Jobim.

A preparação do Plano Estratégico de Defesa formula seis hipóteses para o uso das Forças Armadas e define como reconstruí-las, segundo Mangabeira.

Para o Exército, deverá haver indicações de reformas estruturais. Hoje, conforme explica o ministro extraordinário, somente 10% do contingente é composto por forças de ação estratégica rápida - militares que podem chegar a qualquer lugar do país em poucas horas.

A idéia será dotar o Exército de maior mobilidade e flexibilidade. Em resumo, fazer com que todo o contingente tenha capacidade de mover-se rapidamente, sem núcleos especializados de elite. Pode haver realocação de pelotões e brigadas, mas o essencial será a rapidez no deslocamento. "O problema não é ter um patrulheiro em cada ponto do país", observou Mangabeira, reconhecendo, sem especificar valores, que a idéia a ser proposta exige um salto orçamentário para o Exército.

Para a Marinha, o programa de reaparelhamento terá como prioridade inicial a "negação do mar", disse o ministro - essencial, segundo ele, para garantir proteção, por exemplo, às plataformas de petróleo em alto mar. Os maiores esforços estarão concentrados na conclusão do submarino nuclear brasileiro, que levará mais sete ou oito anos. O equipamento é considerado fundamental para aumentar o poder dissuasório da Marinha. Também serão reformados os submarinos convencionais. Para a parte não-nuclear dos submarinos, deve ser fechada parceria com a França e criada uma empresa binacional.

Mangabeira disse que a FAB "deverá renovar sua frota de aeronaves de 2015 a 2025 e o Brasil não poderá ter um hiato de falta de proteção aérea". No início das discussões, o governo debateu com a aeronáutica duas alternativas: comprar caças de quarta geração, tentando negociar transferência de tecnologia, ou buscar o desenvolvimento de um avião de quinta geração com alguma potência bélica. Evoluiu-se em seguida para duas "soluções híbridas" e o plano a ser anunciado em 7 de setembro provavelmente mencionará uma delas. Ambas envolvem o que se chama no jargão aeronáutico de "quarta geração plus".

Ou seja, aviões de ponta - como o russo Sukhoi Su-35 Flanker, o sueco Gripen NG, o francês Dassault Rafale, o europeu Eurofigther e o americano F-18 Super Hornet.

Há algumas semanas, a FAB deu o primeiro passo e entregou correspondência aos países fornecedores em busca de informações e cotações de preço para detonar o projeto F-X 2. Na primeira hipótese, o Brasil se colocará como candidato a parceiro para desenvolver em conjunto tecnologias que faltem no futuro avião escolhido pelo plano brasileiro. Por exemplo, aumentar o raio de ação do caça ou aperfeiçoar sua capacidade "stealth" (de confundir os radares inimigos).

Na segunda hipótese, comprará um número "limitado" de aeronaves, exigindo transferência de tecnologia, com a abertura do código-fonte, disse Mangabeira. Isso permitiria à indústria nacional, segundo o ministro, desenvolver seu próprio supersônico. Ele reconheceu que "seria ficção" imaginar uma solução que não passe pela Embraer.

Mangabeira se disse "aflito" por acreditar ainda não ter tido sucesso em "convencer a nação" do projeto de reestruturação das Forças Armadas. Ele sublinhou que o projeto é muito maior que o reaparelhamento. Nas conversas com os representantes estrangeiros, o ministro tenta deixar claro que "o objetivo não é comprar brinquedos caros, num supermercado de caças e de submarinos, mas nos colocarmos em uma trajetória de desenvolvimento tecnológico".

Mangabeira acrescentou não querer que essas parcerias se transformem em algo meramente militar. Há projetos com a França para uma tecnologia similar ao GPS americano e com a Rússia para um mapeamento de patentes que estão registradas pelo mundo afora. São planos de alto custo, mas "nada é mais caro do que ter independência nacional", arremata o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos .

SOBRE RODAS



RICARDO BOECHAT
Com RONALDO HERDY

Uma inédita exposição de antigas viaturas militares será inaugurada, dia 15, no Forte Copacabana, no Rio. Reunirá veículos que estiveram no Vietnã, na Coréia e na Itália – entre eles o caminhão que serviu de moradia para o marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da FEB, na Segunda Guerra Mundial.

Defesa da Amazônia Azul é estratégica


Camila Arêas

RIO - Chamado de Amazônia Azul, o território marítimo brasileiro, duas vezes maior que o Estado do Amazonas, entrou no foco das preocupações políticas. No momento em que os mais recentes poços de petróleo encontrados pela Petrobras encostam no limite de 200 milhas náuticas da área considerada de exploração exclusiva do Brasil, a reativação em junho da Quarta Frota da Marinha americana para operações militares nas Américas do Sul, Central e Caribe, conjuga um quadro de inquietação.

Potências estrangeiras têm interesses econômicos e estratégicos na questão. Os Estados Unidos não são signatários da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM), o acordo internacional que estabelece o limite dos mares territoriais de cada nação costeira, do qual o Brasil é signatário desde 1982. E, mês passado, reativaram a Quarta Frota, unidade naval que, segundo o Pentágono, vai patrulhar águas internacionais da costa sul-americana.

Por iniciativa do senador Pedro Simon, a Comissão de Relações Exteriores do Senado decidiu escrever uma carta dirigida aos candidatos à Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama e John McCain. No documento, foi formalizada a preocupação do Senado brasileiro com a reativação da Frota.

– O Brasil precisa defender seu mar territorial, pois é nessa área que está o petróleo cobiçado em todo o mundo. O ministério da Defesa prevê que os próximos poços descobertos ultrapassem a extensão de soberania brasileira. As riquezas em alto-mar se valorizaram muito nos últimos anos. De um lado estão as riquezas marítimas da plataforma continental e de outro a Amazônia, está claro que a não assinatura do acordo é uma estratégia dos EUA.

Ouro negro

Geógrafo da USP, Aziz Nacib Ab' Saber sustenta a preocupação do ministério da Defesa em relação a novas descobertas de petróleo com base na teoria da formação das bacias sedimentares:

– No período de separação entre a América do Sul e a África, ambas costas foram inundadas com bolos sedimentares de algas e restos de animais. Em seguida, levantaram-se os blocos continentais e as bacias sedimentares se aprofundaram, gerando um aquecimento geotérmico que acelerou a transformação deste bolo biogênico em óleo. O petróleo é fruto do movimento tectônico.

O geógrafo conclui que “entre América do Sul e África há muito petróleo que ultrapassa nossa extensão marítima”, ressaltando ser preciso “defender o patrimônio, que parte inalienável da soberania brasileira”.

A camada pré-sal, com reservatórios biogênicos que se estendem por 800 km do Espírito Santo a Santa Catarina, pode conter um volume de petróleo capaz de colocar o Brasil entre as maiores potências petrolíferas. Até agora, a Petrobras estimou apenas as reservas do campo de Tupi, em entre 5 a 8 bilhões de barris de óleo, mas fala-se em 33 bilhões de barris só na bacia de Santos.

O Brasil já negocia com a França um acordo para a construção de um submarino à propulsão nuclear que ajudaria na proteção dessas áreas.

Perito brasileiro da Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) junto à ONU, o oficial da Marinha Alexandre Tagore Albuquerque pondera que “em todas as declarações do governo americano consta a afirmação de que respeitarão a jurisdição dos Estados costeiros em relação aos seus espaços marítimos”, mas ressalta a soberania brasileira:

– Limites de fronteira são uma questão de Estado que invariavelmente envolvem a economia, posto que em última análise o território terrestre ou marítimo será sempre importante fonte de recursos naturais. O interesse de qualquer potência estrangeira não pode ir além do que preconiza o direito internacional. É disso que tratamos.

A Quarta Frota atuou entre os anos de 1943 e 1950 e foi reativada mês passado, sem explicações ou aviso prévio aos países da região que vai patrulhar. O sobressalto levou o ministro da Defesa, Nelson Jobim, a dizer que “Os EUA poderão atuar em áreas não jurisdicionais brasileiras. Aqui não entra!”.

Simon conta que o chanceler Celso Amorim “recebeu um telefonema da secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, desculpando-se por não ter se dirigido antes aos governos da América Latina”.

O senador questiona por que um presidente em final de mandato como George Bush tomou uma atitude como esta sem consultas.

– Por isso queremos saber qual é a posição dos presidenciáveis americanos sobre o tema – insiste. – É uma disputa nova, sem experiências antecedentes. É necessário abrir um diálogo com os presidentes latinos.

Jobim declarou que uma das prioridades da política nacional de defesa, que será anunciada dia 7 de setembro, reestruturar os conceitos da defesa da soberania nacional. Nesse sentido, chegou a defender que a Petrobras colabore com o reaparelhamento da Marinha, que receberia parte dos royalties resultantes da exploração de petróleo.

Brasil desenvolve supermáquina de enriquecer urânio

Criado por pesquisadores da Marinha, modelo avançado de ultracentrífuga já está em funcionamento em Resende

Roberto Godoy

O discreto e bem-sucedido programa de pesquisa nuclear brasileiro tem um novo segredo para guardar: entre março e maio entrou em funcionamento o novo modelo de ultracentrífuga, a avançada máquina de enriquecer urânio criada pelos pesquisadores da Marinha, no Centro Aramar, em Iperó, a 130 quilômetros de São Paulo.

É uma façanha: as unidades, designadas Geração 1/M2, são pelo menos 15% mais eficientes que as anteriores - que, aperfeiçoadas, já apresentam rendimento 50% superior ao do começo da produção, há 20 anos.

As Indústrias Nucleares do Brasil (INB) receberam e montaram o segundo conjunto desses equipamentos na sua fábrica de combustível, em Resende, na divisa entre os Estados do Rio e São Paulo. As entregas foram sigilosas, feitas em comboios sem identificação, protegidos por fuzileiros.

Uma terceira cascata com as mesmas especificações deve entrar em atividade na INB no final de 2009. Enquanto isso, no Centro Tecnológico da MARINHA (CTMSP), um tipo inteiramente novo de ultracentrífuga, ainda em testes de validação, deve estar disponível em 2011 - e será 40% mais eficaz.

Projeto e construção são nacionais. O urânio é enriquecido a 4%, nível adotado pelo País, e alimenta reatores de energia. Armas atômicas exigem graus superiores a 90% de beneficiamento. A agência de pesquisa fica no campus da USP e cuida dos planos de criação dos sistemas de propulsão nuclear para submarino de ataque.

É um objetivo de longo prazo que ganhou fôlego com a liberação de recursos determinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva depois de uma visita a Aramar, em julho de 2007. Com dinheiro em caixa, “o plano foi retomado como um todo”, explica o capitão de fragata e engenheiro naval André Luis Ferreira Marques, do grupo de especialistas do CTMSP. Prova prática: estão abertos concursos para provimento de vagas - de engenheiros especializados a pessoal administrativo, cerca de 400 funcionários.

O submarino, de 6 mil toneladas, com 96,6 metros de comprimento e 100 tripulantes, exige cerca de 11 anos de trabalho. Antes disso, porém, será necessário testar e completar um reator PWR (de água pressurizada) de 48 MW. O dispositivo está pronto em Iperó, as grandes peças armazenadas em ambiente de gás inerte para evitar a deterioração. Aguarda a conclusão das obras do Laboratório de Geração Nucleoelétrica, o LabGene. O complexo teve as obras civis retomadas. Fica pronto no final de 2010.

O reator que permanece desmontado vale US$ 130 milhões. Expandido, ele servirá ao submarino e à produção de eletricidade de usinas regionais de 300 megawatts.

O Centro Tecnológico da Marinha vai receber R$ 1,040 bilhão em parcelas anuais de R$ 130 milhões. O dinheiro está sendo empregado no ciclo do combustível, geração de energia, propulsão e infra-estrutura. Marques estima que o processo exigirá sete anos, no mínimo, para ser completado.

O investimento no programa nuclear tem sido feito principalmente pelo Comando da Marinha, com recursos próprios. Desde 1979, as aplicações somam US$ 1,117 bilhão - só US$ 216 milhões vieram de outras fontes governamentais.

A ultracentrífuga é o produto mais sensível do processo. Os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não têm acesso às cascatas. As verificações previstas no acordo de salvaguardadas, firmado pelo governo brasileiro e renovado há pouco mais de dois anos, abrangem complexa contabilidade. “O que interessa à AIEA é saber o quanto de gás de urânio entrou no sistema, o quanto saiu de urânio enriquecido, o U235, e também de urânio empobrecido, o U238 - é uma equação que tem de fechar sem erro”, explica o almirante Carlos Bezerril, diretor-geral do CTMSP.

A regra de preservação do conhecimento sensível vale desde 2003, quando a Marinha e a INB passaram a cobrir com painéis todas as ultracentrífugas, permitindo aos peritos internacionais a observação apenas do circuito de entrada e saída. Em Iperó, a cascata de beneficiamento é monitorada ininterruptamente por câmeras blindadas guardadas em caixas que foram lacradas pela AIEA. As ultracentrífugas do Brasil utilizam a flutuação magnética para evitar o atrito entre partes móveis. Assim, duram mais e têm maior capacidade.

Os fundos liberados pelo presidente Lula permitirão o funcionamento, em dois anos, de uma central semi-industrial, para produzir até 40 toneladas por ano de gás de urânio, a última etapa do complexo ciclo do combustível nuclear que o País não executa, embora domine o conhecimento. A produção atenderá às necessidades do Comando da Marinha. A Força utiliza o hexafluoreto de urânio para ensaios científicos e para enriquecimento do mineral.

Estão sendo investidos cerca de R$ 40 milhões nas obras em Iperó. A Financiadora de Projetos e Pesquisas (Finep) destinou R$ 23,60 milhões para o projeto desde 2007. Atualmente, o urânio transformado em yellow-cake é enviado em tambores de 400 quilos para a empresa Cameco, do Canadá, que realiza, sob contrato, a conversão para o gás.

'Entregamos dados sobre as Farc ao Brasil para que aja como achar melhor'



Lourival Sant"Anna

Eles ainda estão lá. Depois da desconcertante operação de resgate dos 15 reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), no dia 2, a inteligência do Exército ainda tem agentes infiltrados na guerrilha, e ainda conta com delatores, que agem por vingança. Foi o que revelou o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos, em entrevista exclusiva ao Estado.

No calor da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Colômbia, nos dias 19 e 20, Santos contou que foram entregues ao governo brasileiro informações sobre as conexões das Farc no Brasil, para que Brasília “possa reagir como considerar mais apropriado”. Ex-cadete da Escola Naval de Cartagena, onde foi instrutor do ex-guerrilheiro Simón Trinidad, preso nos EUA, Santos, de 56 anos, membro da família proprietária do jornal El Tiempo, o mais importante da Colômbia, diz que as Forças Armadas seguirão na sua estratégia, de pressionar as Farc militarmente e de executar operações de resgate, desde que não coloquem em risco a vida dos reféns.

Qual o impacto do resgate dos reféns sobre o conflito armado?

Foi o golpe simbólico mais duro que a guerrilha já sofreu, porque, sem disparar um só tiro, sem derramar uma só gota de sangue, tiramos deles o que eles chamavam de suas “jóias da coroa”: os (três) seqüestrados estrangeiros, a ex-candidata presidencial (Ingrid Betancourt) e 11 membros do Serviço Público (polícia e Exército), numa operação que encantou o mundo todo.

Os combates continuam?

Combates há quase todos os dias. Seguimos com nossas operações, pressionando-os militarmente. Isso, para eles, causa problemas internos muito complicados. Sabemos que já começaram questionamentos e acusações internas. Mas isso não quer dizer que não sigam com capacidade de combate, e nos enfrentamos todos os dias.

Fui informado de intensos combates no sul de Meta (departamento do centro-sul da Colômbia), onde estaria Mono Jojoy (comandante militar das Farc). Isso é certo?

Sim, lá há bombardeios intensos, mas não somente nessa área. Também noutras há operações. Eles quase não combatem mais. O que fazem é fugir da Força Pública.

Onde estaria (o comandante das Farc) Alfonso Cano?

Numa região chamada Cañon de las Hermosas, entre os departamentos de Tolima e do Valle (oeste).

Lá também há operações?

Muitas.

As Forças Militares sabem onde estão os outros (26) reféns?

Sabemos a área geral, não o lugar particular.

Cogita-se de fazer novas operações militares de resgate?

Nunca renunciamos a fazer operações militares e as fazemos há muito tempo, desde que os riscos para os reféns sejam muito baixos. Autorizamos essa última operação porque o risco para os reféns era praticamente zero. Não vamos fazer o jogo deles, colocando em risco a vida dos reféns.

O agente de inteligência infiltrado continua nas Farc ou já voltou?
É mais de um infiltrado. Alguns continuam lá, outros já regressaram.

E é isso o que está causando questionamentos internos nas Farc?

Sabemos que entre eles há muitas recriminações. E é lógico, porque uma grande operação como essa, um desprestígio tão grande para eles, obviamente produz reações entre eles.

Hoje em dia a guerrilha continua recebendo armamentos e equipamentos?

Eles ainda recebem, mas a cada dia estamos bloqueando mais os seus corredores de mobilidade e de logística. Eles estão debilitados, mas não derrotados. Ainda têm capacidade de reagir e seria um erro da nossa parte cair num falso triunfalismo.

O sr. acha que a reação dos guerrilheiros agora será tentar uma operação militar para demonstrar força ou negociar?

Diria que a segunda alternativa, sobretudo depois da marcha de domingo (dia 20), sem precedentes na história da Colômbia. As pessoas foram para as ruas como nunca antes, para dizer às Farc que basta de violência, basta de seqüestros, que libertem os reféns e negociem em paz. Se eles tiverem alguma sensatez, devem aproveitar este momento. Com a dinâmica militar e os golpes que temos dado neles, talvez dentro de algum tempo eles decidam negociar.

Depois do resgate não houve nenhum contato?

Não, nem direto nem indireto.

De onde vêm as armas deles?

Eles têm armas de muitas origens. Como revelaram os computadores de Raúl Reyes (número 2 das Farc, morto em 1º março, numa operação militar colombiana no Equador), eles têm conexões até com traficantes de armas australianos.

O que se sabe sobre suas conexões no Brasil?

Há uma série de informações de conexões, que entregamos ao governo brasileiro, para que ele possa reagir como considerar mais apropriado.

Há armas que chegam do Brasil?

Não temos informações de armas, mas de conexões que têm com gente no Brasil.

Conexões políticas, de narcotráfico, ou ambas?

Prefiro não comentar isso. Certamente de narcotráfico; isso se sabe que eles têm.

Há pessoas que se dizem representantes das Farc no Brasil. O governo colombiano pediu ao brasileiro que coloque mais atenção nesse aspecto político?

Sim, temos essa informação, e a fizemos chegar ao governo brasileiro, para ver se ele pode ter algum tipo de vigilância sobre esses supostos representantes das Farc lá.

Dizia-se que eles eram cerca de 17 mil antes do governo Uribe (2002). Hoje, fala-se em 10 mil. É esse o número com que vocês trabalham?

O último cálculo está ao redor de 7 mil a 8 mil.

Tive a informação de um plano do Exército de acabar com as Farc em quatro anos. É verdade?

Não, não existe esse plano, nem consideramos que seja apropriado estipular um prazo, porque, se não se cumprisse, isso acabaria se voltando contra nós.

Os paramilitares deram lugar a um novo grupo?

Os paramilitares como tais deixaram de existir, porque eles tinham se organizado para combater a guerrilha. O que há são seqüelas do paramilitarismo que se converteram em bandos criminosos a serviço do narcotráfico, sem nenhum tipo de ação contra a guerrilha.

Quanto os Estados Unidos investiram na Colômbia em ajuda militar?

O Plano Colômbia tem tido, desde o ano 2000, orçamentos de US$ 500 milhões a US$ 600 milhões por ano, distribuídos em diferentes tipos de ajuda, tanto militar quanto contra os narcóticos e (programas) sociais.

Qual foi a participação americana na operação de resgate dos reféns?

Nessa operação, não houve nenhum tipo de intervenção de nenhum país estrangeiro. Os americanos foram informados uma semana antes da operação, porque esse era o compromisso do presidente (Álvaro) Uribe, por causa da presença dos reféns americanos. Nesse resgate, eles não nos ajudaram em nada. Não obstante, têm nos ajudado com inteligência e equipamento.

A infiltração envolveu pagamento em dinheiro a algum guerrilheiro?

Nem um peso foi pago. Os infiltrados são nossos. E os que nos ajudaram, do lado deles, não agiram por dinheiro, mas por vingança.

Por vingança?

Sim, é gente que estava muito insatisfeita internamente. Nós chamamos os que nos ajudam do lado de lá de “penetrados”. Às vezes o fazem por dinheiro, às vezes por outros motivos. Neste caso, foi por problemas internos.

Por terem sido maltratados?

Sim, e por terem executado seus familiares.

Quantos são os “penetrados”?

Não posso revelar.

Qual será a prioridade das Forças Militares a partir de agora?

Os últimos meses foram os mais produtivos da história da luta contra os grupos terroristas e as Farc. Ninguém poderia imaginar que cairiam tantos comandantes, que se desmobilizariam tantos guerrilheiros e que se realizaria um resgate como esse. Nossa estratégia é golpear os comandantes, incentivar a desmobilização, capturá-los. Tem funcionado muito bem e vamos continuar.

O Brasil pode ajudar?

Para nós, o Brasil é um país de grande importância em todos os sentidos. Ficamos muito satisfeitos com a visita do presidente Lula. Ele declarou que nenhum grupo deve buscar o poder por meio do conflito armado. É um sinal muito importante para as Farc.

SOLDADO SUSPEITO DE FURTAR CARRO É PRESO



Um soldado do Exército, de 18 anos, foi preso na madrugada de ontem por furtar um Ford Fiesta. Policiais que faziam ronda na rua Almirante Marques Leão, na Bela Vista, centro de São Paulo, perceberam quando um carro estacionou a poucos metros. Quando se aproximaram, o condutor fugiu. Houve perseguição e o soldado foi detido na avenida Paulista. Levado ao Distrito Policial da Aclimação, confessou o crime. De manhã, o jovem foi encaminhado para o batalhão prisional da polícia em Osasco.

Quarta Frota atiça retórica esquerdista

Reativação da esquadra dos EUA para América Latina provoca desconfiança e estimula aumento de gastos militares

Compras prévias incluem caças e submarinos por Caracas e aviões da Embraer por Quito e Santiago; região pode abrigar ações pontuais




RICARDO BONALUME NETO

DA REPORTAGEM LOCAL

Duas semanas depois de ter sido recriada, a Quarta Frota americana ainda é uma esquadra de papel, mas continua poderosa na retórica dos líderes esquerdistas da América Latina, sua região de operação.

O venezuelano Hugo Chávez, em visita à Rússia na semana passada, disse que os navios dos EUA não seriam bem-vindos em seu país, ao contrário de uma frota russa, que seria recebida "calorosamente".

Um erro de tradução sugeriu que Chávez tinha oferecido uma base naval aos russos, mas ele não chegou a tanto. Seria uma provocação exagerada, e nem haveria interesse ou capacidade russa de operar na região agora. Em compensação, suas prováveis compras de mais material bélico poderão alterar o balanço de forças na região em um futuro próximo.

Quando necessário, o Comando Sul das Forças Armadas dos EUA sempre teve navios à disposição, retirados de outras esquadras, para exercícios com os países da região ou intervenções armadas.

Recriada após quase 60 anos, a Quarta Frota consiste apenas em um quartel-general com cerca de 120 militares, localizado na Flórida. Criá-la sob esse nome foi uma óbvia medida administrativa, pois outras regiões do planeta têm esquadras americanas numeradas (e com real poder de combate).

Mas foi um equívoco diplomático, pois serviu como pretexto para os líderes de esquerda reclamarem da intervenção "imperialista" local. "Seus fins intervencionistas, não é preciso demonstrá-los", disse o aposentado ditador Fidel Castro.

Chávez – quarto em gastos de Defesa na região, atrás de Brasil, Colômbia e Chile – aproveitou a recriação do comando para justificar suas compras que tem feito de armamentos, sobretudo submarinos e caças russos, além de um sistema de defesa aérea.

Teatro regional

Deixando de lado mísseis e armas nucleares, a lista de compras é justamente o arsenal possível a um país do porte da Venezuela para tentar se defender de um eventual ataque americano. Caças podem ser varridos dos ares rapidamente, mas submarinos podem causar problemas mesmo a esquadras sofisticadas.

Para os militares de outros países, como o Brasil, essa injeção de material novo em um país tenderia a quebrar o equilíbrio regional. A Venezuela comprou 24 modernos caças Sukhoi Su-30; se, como se especula agora, for comprar outros 24, terá a Força Aérea mais bem equipada da região.

O avião de caça é um bom parâmetro do potencial de um país para guerra convencional, pois concentra tecnologia e poder de fogo, além de rápida capacidade de intervenção.

Um conflito convencional na América Latina seria de curta duração, por conta de pressões internacionais, custo econômico e precariedade de muitas forças armadas.

Um bom exemplo foi a Guerra de Cenepa entre Peru e Equador, em janeiro e fevereiro de 1995, que envolveu pequeno número de tropas e de aviação. O ataque aéreo colombiano às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) no Equador foi outro exemplo de operação militar pontual que pode ocorrer no futuro.

Os militares da região têm de lutar com o que está na mão, sem tempo para mobilizações prolongadas ou compras.

A Embraer está modernizando com tecnologia israelense os velhos caças americanos F-5 Tiger.

O Brasil opera a versão F-5E monoposto e a versão biposto F-5F para treinamento. Seis destes caças F-5EM foram este mês aos EUA participar de um famoso exercício de combate aéreo, a operação"Red Flag" da Força Aérea dos EUA, na Base Aérea Nellis, perto de Las Vegas.

Da caatinga para a missão no Haiti



Roseanne Albuquerque
Núcleo SJCC Petrolina

Trinta e sete homens lotados no 72º Batalhão de Infantaria Motorizado (72º BIMTz) em Petrolina, Sertão do Estado, farão parte da próxima tropa que será enviada para a missão de paz no Haiti, em meados de novembro. O país da América Central, devastado por sucessivas crises políticas e pela pobreza extrema, conta com reforço dos militares brasileiros há quatro anos. Desta vez irão 800 homens de várias unidades das Forças Armadas no Nordeste. O 72º BI, acostumado a receber equipes para treinamento de sobrevivência na caatinga, envia, agora, alguns de seus homens para a missão internacional.

“Estes militares foram selecionados dentro de critérios rigorosos e sem dúvida merecem cumprir essa missão. São homens de várias companhias e a gente espera que eles possam bem representar o sertanejo. Que levem um pouco da nossa história e do nosso batalhão", enfatiza o comandante do 72º BI, tenente-coronel Anibal Rocha. “Eles estão agora providenciando passaporte, terão acesso a conhecimentos técnicos e vão se preparar com equipamentos. Enfim, todo o suporte logístico para o cumprimento da missão", complementa o comandante.

Os militares que vão integrar a missão de paz participam de um treinamento de aproximadamente quatro meses. É nesse período que vão aprofundar conhecimentos logísticos e conhecer mais sobre o país e sua população. "A expectativa em participar de uma missão como essa é grande, o pessoal está vibrando muito, ansioso para que chegue a hora de nos deslocarmos até o Haiti", revela o sargento Ivanilton Negreiro.

O sargento aposta na experiência de ter convivido dois anos em área de selva, na fronteira com a Venezuela, para lidar bem com a saudade da família. "Nessa época chegava a ficar por longos períodos dentro da selva, indo raramente a alguma cidade. Ali era isolamento mesmo, não tinha como se comunicar direito e acabei aprendendo a lidar com a solidão, com a distância da família e de amigos.

Quem nunca passou por isso, sente um pouco no início", comenta Negreiro, relembrando sua passagem pelo 70º Batalhão de Infantaria de Selva. "Agora a situação é diferente, temos mais mecanismos de comunicação à nossa disposição, como a internet e o telefone", prevê o sargento.

Participando de sua primeira missão internacional, o capitão Jorge Santos Costa - que serve há quase três anos na unidade militar sertaneja - aguarda com expectativa o momento de iniciar a missão.

"A gente se prepara o tempo inteiro para isso, dentro da academia temos essa aspiração. E agora é real, vamos integrar uma missão de paz. Isso é muito positivo", enfatiza. Para lidar com a saudade da família, o capitão já tem a resposta na ponta da língua: "Teremos determinados recursos de comunicação, como o skype, que servirão para amenizar a distância de casa."

29 julho 2008

Segurança e Defesa


Marcelo Rech

O vice-presidente do Panamá, Samuel Lewis Navarro, que também é o ministro de Relações Exteriores do país, abre nesta quarta-feira em cerimônia no Canal do Panamá, a Conferência Sub-regional de Segurança e Defesa, promovida pelo Centro de Estudos Hemisféricos de Defesa (CHDS) com o apoio do governo panamenho.

Especialistas, acadêmicos e autoridades das três Américas, Estados Unidos e Espanha, estarão presentes. O InfoRel cobre com exclusividade o evento desde a Cidade do Panamá, capital do país.

Presença militar gera incômodo na América do Sul


Marcelo Rech, da Cidade do Panamá

No último dia 16, o ex-vice-presidente da Venezuela, José Vicente Rangel, reforçou denúncia feita pelo presidente Hugo Chávez quanto ao interesse dos Estados Unidos em construir na Colômbia, uma base militar na região de Guajira, na fronteira colombo-venezuelana.

Segundo ele, militares dos Estados Unidos já teriam até mesmo iniciado a construção de pistas de pouso. O governo colombiano confirmou, mas também não negou.

O certo é que desde a posse do presidente equatoriano Rafael Correia, os Estados Unidos buscam uma alternativa para Manta, onde mantém uma base militar que seria bem mais uma espécie de posto de abastecimento de aviões norte-americanos.

Atualmente, os Estados Unidos conta com cerca de 500 militares na Colômbia. Esses militares estariam no país para oferecer treinamento para os militares colombianos principalmente quanto ao combate ao narcotráfico.

De acordo com a norma aprovada pelo Congresso norte-americano, eles não podem ingressar na selva ou participar de operações de resgate, por exemplo, mas há indícios fortes de que até já tenham participado de combates com guerrilheiros das Farc.

Em janeiro de 2009, o contrato de cessão da base de Manta vence e o atual governo do Equador não pretende renová-lo. Hugo Chávez já se movimenta para reclamar a posse territorial da área onde a suposta base estaria sendo levantada.

Antes da Colômbia, denunciou-se que os Estados Unidos estariam interessados em levar a base militar para o Peru. Especulações a respeito levaram os presidentes peruano Alan Garcia bolivano Evo Morales, à troca de insultos. As relações entre ambos ainda é tensa.

Embora a presença militar norte-americana na América do Sul seja considerada extremamente tímida por alguns, grupos de esquerda latino-americanos asseguram que há interferência dos Estados Unidos na região a partir de Guantánamo (Cuba), Aruba (Curaçao), Compala (El Salvador), Comayagua (Honduras) e Mariscal Estigarribia (Paraguai), além obviamente de Manta.

Ganhou enorme relevo essa discussão a partir da reativação em 1º de julho, da IV Frota da Marinha dos Estados Unidos. Embora o governo norte-americano negue, ela já patrulha os mares da América Latina e há temores que entre também em rios como da Prata, Orinoco e Amazonas.

O Pentágono, por exemplo, reconhece que a IV Frota é uma mensagem para a Venezuela no momento em que o país intensifica suas compras militares russas e se oferece para sediar uma base militar da Rússia em seu território, algo que ainda não foi bem explicado.

Militares dos Estados Unidos justificam a reativação da IV Frota como necessária para o combate ao terrorismo e às atividades ilícitas na região.

A IV Frota estará baseada em Mayport, na Flórida e sua reativação, reconheça ou não o governo norte-americano, ocorre num momento em que governos populares (populistas para os Estados Unidos) se fortalecem nas américas do Sul e Central.

As várias reações na América do Sul à reativação da IV Frota obrigaram a que o Subsecretario de Estado para o Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado norte-americano, Thomas Shannon, se explicasse.

Ele é uma espécie de chefe dos embaixadores norte-americanos na região. Está no cargo desde 2005 e sempre procurou trabalhar com discrição, inclusive quando o venezuelano Hugo Chávez mudou de opinião quanto às Farc e pediu que a guerrilha entregasse os reféns sem impor condições.

Thomas Shannon acusa Hugo Chávez de intervir no processo político em El Salvador onde estaria apoiando a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN).

Como forma de justificar a presença dos Estados Unidos na América do Sul, ele afirma que a ameaça terrorista na Colômbia é real, embora ressalte que o governo de Álvaro Uribe está vencendo as Farc como já teria vencido os paramilitares e o Exército de Libertação Nacional (ELN).

Para Shannon a guerra travada pelos Estados Unidos na Colômbia é necessária para a democracia, pois seria a guerrilha a responsável pela debilitação do estado e pela corrupção de servidores públicos e dos partidos políticos.

Por outro lado, não podemos esquecer como os Estados Unidos avaliam os países da região. Dos dez países da região, não têm problemas com Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai.

As relações estão fortemente estremecidas com Argentina, Bolívia, Equador e Venezuela, mesmo após as declarações de Chávez de reabrir o diálogo com o futuro presidente norte-americano, seja ele Barack Obama ou John McCain.

A integração sul-americana e o papel do Conselho de Defesa


Marcelo Rech

No dia 7 de setembro, o ministro da Defesa pretende anunciar ao país uma nova estratégia para a política de defesa nacional. Ainda não se sabe onde será encaixada a proposta de criação do Conselho Sul-Americano de Defesa que até agora, poucos sabem o que realmente será e que funções terá.

A Colômbia que resistia explicitamente ao Conselho, decidiu integrá-lo, mas nada de novo surgiu além da exitosa operação de resgate de 15 reféns das Farc, incluídos os três norte-americanos e a franco-colombiana Ingrid Betancourt.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, tem dito deste que iniciou seu périplo pelos países vizinhos e os Estados Unidos (?), que o órgão não será um conselho nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), um sentido clássico de mecanismo de defesa regional.

Resta saber então, para quê existirá o conselho, pois se for para integrar as indústrias de defesa, apenas o Brasil realmente poderá ganhar. No entanto, não se pode acreditar que a Venezuela vai comprar do Brasil ou que a Colômbia vai deixar de adquirir seus equipamentos dos Estados Unidos.

Portanto, uma coisa é a reorganização das Forças Armadas brasileiras e outra, completamente diferente, a instituição do Conselho Sul-Americano de Defesa. Atualmente, o Brasil tem uma capacidade operacional de suas forças, abaixo da crítica.

Num cenário regional, não teríamos condições de fazer frente à Colômbia, Peru e Venezuela. Nosso poder de dissuasão tem diminuído a cada ano, justamente na contramão das novas descobertas petrolíferas num momento crítico para a produção de energia em todo o mundo.

Por outro lado, o país sempre esteve de costas para as novas ameaças e uma defesa nacional que atente para o que representam o terrorismo e o narcotráfico com seus tentáculos com o crime organizado, o contrabando, a porosidade das fronteiras terrestres e marítimas e a vigilância e proteção do espaço aéreo, deve ser tratada como uma política de estado.

Nesse contexto, não podemos deixar de aprofundar a cooperação com a vizinhança, inclusive e principalmente no que diz respeito aos temas de defesa. Entendo que é parte indissociável do processo de integração. A criminalidade e tudo o que ela representa, está integrada e globalizada há décadas.

Por outro lado, tenho dúvidas quanto à criação de mais um mecanismo, desta vez o Conselho Sul-Americano de Defesa, para que uma política regional nesta direção seja verdadeiramente implementada.

Talvez fosse interessante rever, por exemplo, o que levou à falência, a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Junta Interamericana de Defesa (JID). Ainda que a meta seja a institucionalização de uma identidade sul-americana de defesa, temos a obrigação de conhecer aquilo que não deu certo.

Até para que os erros não se repitam e o futuro conselho seja de fato algo útil para a manutenção da paz, a resolução das tensões e o pleno desenvolvimento regional.

Neste sentido, ganha maior relevância a chamada “diplomacia militar”, onde as Forças Armadas da região se reúnem para trocar experiências, aprofundar a cooperação, gerar confiança e executar treinamentos e exercícios conjuntos. Funcionou quando da Operação Condor.

Marcelo Rech é jornalista, editor do InfoRel e especialista em Relações Internacionais e Estratégias e Políticas de Defesa.

27 julho 2008

G-29 Garcia D´Ávila



A classe britânica Sir Lancelot, foi inicialmente constituida por cinco navios, sendo o Sir Lancelot o primeiro a ser lançado como navio experimental, sendo os outros entregues vários anos mais tarde.

Inicialmente os navios eram operados por empresas civis, e em 1980 foram classificados como RFA (designação para navios auxiliares de esquadra).

Destinaram-se a servir para apoio das forças do exército britânico, com capacidade para operar helicopteros, transportar até 16 carros de combate pesados, trinta e quatro veículos de vários tipos. Eles podem ainda transportar tropas. Existem acomodações para 340 militares, numero que pode chegar a 540.

Construidos com superestruturas em aluminio e pensados como navios do tipo «Ferrie-boat» eles eram construidos com padrões civis, não se esperando que fossem utilizados em zonas de combate.

No entanto dois destes navios foram enviados em 1982 para o Atlântico Sul e foram utilizados operacionalmente pelos britânicos no conflito.

Em 8 de Junho de 1982, menos de uma semana antes da rendição final das forças argentinas nas Malvinas, os dois navios foram enviados numa operação de transporte nocturno, devendo desembarcar forças a sudoestes da capital das Malvinas durante a manhã. Mas uma sequênciia de desentendimentos entre os comandos das forças transportadas e o comando dos navios que levaram a que estes ficassem durante horas parados, o que deu tempo aos argentinos para prepararem um ataque.

Tanto o Sir Galahad como o Sir Tristram, foram bombardeados, num ataque que resultou na maior perda de vidas britânicas durante toda a guerra das Malvinas.

O Sir Galahad foi muito danificado pelo fogo e a sua estrutura em aluminio derreteu, o que levou a que o navio fosse rebocado para alto mar e afundado pelos próprios britânicos.

Já o Sir Tristram, embora bastante danificado, voltou à Grã Bretanha em 1983 onde foi submetido a um processo de reconstrução.

Esse processo de reconstrução acabou por servir de modelo para os restantes navios do tipo. Eles foram aumentados em cerca de 9m e ficaram com uma coberta de voo maior e com capacidade para operar helicópteros de maiores dimensões.

O Sir Bedivere, que embora tenha participado do conflito sofreu apenas pequenos danos, também foi submetido à mesma modificação, mas a sua modernização foi mais extensa, tendo ocorrido em 1994. Ele recebeu mesmo novos motores a Diesel (Stork-Wartsila).

Dos seis navios da classe, um - O Sir Galahad - foi afundado, outro - o Sir Lancelot - foi vendido para uma empresa comercial e posteriormente para Singapura, dois - Sir Tristram e Sir Bedivere - foram modernizados e os restantes dois não chegaram a sofrer qualquer modificação.

Todos os navios da classe foram retirados de serviço até 2006. Nessa altura a Royal Navy já tinha optado por construir uma nova classe de navios logisticos (conhecidos como classe Bay).

Informação genérica:

Os navios do tipo Sir Lancelot, são navios de desembarque de origem britânica, construidos no final dos anos 60 e transformados em RFA (de Royal Fleet Auxiliary), um tipo de navio que pode ser tripulado por civis, embora esteja ao serviço do governo britânico.

Este tipo de navio, que tem uma porta de proa, que se abre para que o navio encalhe na praia e permita colocar veículos directamente em terra. Tem capacidade para transportar 16 tanques pesados, 34 veículos de vários tipos, entre veículos de transporte e blindados leves, e pode ainda transportar até 534 militares.

Baseados em especificações civis, os navios da classe foram inicialmente apenas concebidos para funcionar como navios Ro-Ro (Roll on Roll Off) em apoio de forças do exército, nunca tendo sido pensados para operar em situações de combate.

Por essa razão, o navio tem muitas das suas estruturas em aluminio, e muitas divisórias internas extremamente finas, além de não ter nenhum tipo de blindagem.

Esta debilidade tornou-se evidente quando o RFA Sir Galahad foi atingido por aeronaves argentinas durante o conflito das Malvinas. Atingido por bombas, o navio pegou fogo, e parte da sua débil estrutura derreteu, o que tornou qualquer trabalho de recuperação inutil. Sem qualquer utilidade para o navio, e porque este se tornava um perigo à navegação numa zona de guerra, onde perante os ataques argentinos os restantes navios tinham que se movimentar, o comando britânico deu ordem para que o navio fosse afundado.

A unidade perdida deu lugar à construção de uma unidade adicional, que embora tendo o mesmo nome e características básicas, tem dimensões diferentes e maior capacidade e melhor protecção, incorporada como consequência do conflito das Malvinas.

Sir Galahad II - G-29 Garcia D´Ávila

O sir Galahad, não deve ser confundido com a antiga unidade deste tipo, também chamada de Sir Galahad, mas que foi afundada durante o conflito das malvinas, depois de um fogo a bordo ter tornado o navio irrecuperável.

O novo Sir Galahad, embora construido para a mesma função é mais moderno e tem maiores dimensões.

Ele tem capacidade para transportar de 343 a 537 militares, o que não é muito mais que a versão anterior, a diferença é que este navio pode transportar essa quantidade de militares em condições minimamente aceitaveis durante mais tempo.

Por causa das debilidades que levaram ao afundamento do primeiro Sir Galahad, o novo navio tem instalado um sistema muito mais sofisticado de controlo de danos e de incendios. Também na área da ponte de comando o alumínio foi agora substituido por aço.

A autonomia do navio também foi aumentada. Incorporado em 1986, ele participou na guerra do golfo em 1991 e também em operações de apoio durante o conflito no Iraque em 2003.

Ele foi desactivado da marinha britânica, e repassado para a Marinha do Brasil em 2007.

CARACTERÍSTICAS:

Deslocamento (toneladas): 8.751- plena carga

Dimensões (metros):
comprimento - 141
boca - 19,5
calado - 4,5

Velocidade (nós): 17

Raio de Ação (milhas): 13.000 a 14 nós

Capacidade de tropa, carga e viaturas: 460 homens, 18 carros de combate, 20 veículos diversos, munição, óleo e gêneros.

Operações aéreas: 2 convéses de vôo, capazes de operar e transportar aeronaves do porte do UH-14

Capacidade de carga (toneladas): 1000

Tipo de propulsão: Motor a Diesel - 2 x Motor a Diesel Mirrlees Blackstone (13.320cv/hp)

Fortaleza no mar



Bolívia criará força militar amazônica para lutar contra contrabando



La Paz, 26 jul (EFE).- O Governo da Bolívia anunciou a criação de uma força militar amazônica para lutar contra o contrabando, principalmente de hidrocarbonetos e madeira para o Peru e o Brasil, informou hoje a "Agência Boliviana de Informação".

O ministro da Presidência, Juan Ramón Quintana, informou que a nova força militar, que se chamará Comando Amazônico, operará a partir do próximo ano nas regiões do norte de La Paz, de Beni e de Pando, que fazem fronteira com o Peru e o Brasil.

O funcionário revelou o plano do Governo na cidade de Pando, no norte do país.

"Não vamos continuar permitindo que nossos recursos naturais continuem sendo objeto de tráfico: madeira, combustível, entre outros", declarou Quintana, que disse que as Forças Armadas têm um papel central "no atual Governo".

Confrontos no Sri Lanka matam 74, a maioria rebeldes



COLOMBO (Reuters) - Tropas do Sri Lanka continuaram a ofensiva contra os rebeldes tigres tâmeis em dois dias de conflitos no norte do país que já mataram 66 rebeldes e oito soldados, disseram os militares no sábado.

Os combates no distrito de Jafna, Vavuiya Polonnaruwa, Mannar e Mullaitivu começaram três dias após o governo ter descartado uma declaração dos Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE, na sigla em inglês) de um cessar-fogo unilateral entre 26 de julho e 4 de agosto.

"Nossas ofensivas vão continuar, as tropas mataram 66 terroristas da LTTE nos combates de quinta e sexta-feira", disse o porta-voz do Exército, Brigadeiro Udaya Nanayakkara. "Oito soldados morreram e 11 foram feridos nas batalhas", acrescentou.

Os tigres não foram encontrados para comentar.

O governo do Sri Lanka segue a estratégia de retomar gradualmente o reduto dos Tigres no norte e vencer a guerra civil de 25 anos com ataques quase diários por terra, ar e mar a territórios dominados pelos rebeldes.

Os últimos combates ocorreram uma semana após o Exército dizer que havia dado um "golpe fatal" nos rebeldes com a retomada da cidade de Vidattaltivu, no noroeste, a principal base dos tigres.

O pacto de cessar-fogo, apoiado pela Noruega, entre o Sri Lanka e os rebeldes em 2002 terminou formalmente em janeiro após o governo decidir descartá-lo, alegando que os guerrilheiros o usavam para ganhar tempo e rearmar suas tropas.

A guerra civil já matou mais de 70 mil pessoas. Os tigres lutam desde 1983 por um Estado independente no norte e leste do Sri Lanka para a minoria tâmil.